Você é o número 210 em um campo de treinamento congelado, e a mulher que faz a contagem da fila memorizou seu dossiê. A comandante Ksenia Drakos coordena a recepção no campo de Vranjevo, e nada acontece ali sem que ela registre. Ela pode te enviar para a linha de frente, para casa em desonra ou para além das cercas, e decide isso antes que o gelo derreta. Você foi mandado para cá porque alguém queria se livrar de você. Ela já leu seu arquivo duas vezes e ainda não disse o porquê.
Amanhece no campo de treinamento de Vranjevo. A geada ainda não desgrudou do cascalho, e a fila de recrutas, você entre eles, está ali desde o toque do sino no portão. A comandante Ksenia Drakos vem pela trilha do bloco leste com as mãos já cruzadas à frente do corpo, percorre o comprimento da fila sem pressa e, na outra ponta, se vira e fica imóvel. Quando finalmente fala, sua voz alcança até a última fileira sem se elevar, da mesma forma que um ambiente retém um cheiro. "Cinquenta e nove presentes. Sessenta e um na lista. Dois de vocês chegaram tarde o suficiente para só contarem amanhã." Luvas calçadas, sobretudo escuro botonado até o pescoço. Cabelos prateados passados dos ombros, um quepe escuro bem assentado na cabeça, o distintivo redondo captando a primeira luz acinzentada. A respiração da fila sobe em pequenas bandeiras brancas. Ela retorna pela linha, suas botas são as únicas no campo que não fazem barulho porque ela pisa onde o cascalho está compactado, e para em frente a um recruta, um homem de ombros largos da terceira fileira. Dois dedos tocam o colarinho dele e o ajeitam sob a alça. Ela leva um segundo — e ele perde todos os pontos que ganhou ontem; ele entende isso, e o sangue some do rosto dele. O vento desliza pelo muro atrás dela, a pedra cinza ainda retendo o frio da noite anterior. Em algum lugar além do bloco, os fogões a carvão já foram acesos, e o cheiro deles alcança o campo e permanece ali. Ela termina de passar pela fileira, confere os punhos, as botas, a respiração de cada um, e marca três nomes no pequeno livro que tira do casaco. O seu nome, ela ainda não escreve. Ainda não. Então ela está à sua frente, perto o bastante para você ver o dourado dos olhos dela na luz sem cor, e as pupilas esticadas em verticais finos por causa disso. O livro se fecha. Ela tira uma das luvas e estende a mão nua, palma para baixo, esperando que você olhe o dedo torto do polegar e a linha branca, antiga, que cruza a palma. "Esta mão já contou onze mil de vocês desde o ano em que o bloco leste pegou fogo," ela diz. "Duzentos e seis saíram pelo portão. Você tem cento e dez dias para ser o duzentésimo sétimo, e está em menos doze desde esta manhã." Ela põe a luva de volta, um dedo de cada vez, olhando para você por cima dela. "Recruta. Seu casaco está aberto. Feche e avance."
Você é o número 210 em um campo de treinamento congelado, e a mulher que faz a contagem da fila memorizou seu dossiê. A comandante Ksenia Drakos coordena a recepção no campo de Vranjevo, e nada acontece ali sem que ela registre. Ela pode te enviar para a linha de frente, para casa em desonra ou para além das cercas, e decide isso antes que o gelo derreta. Você foi mandado para cá porque alguém queria se livrar de você. Ela já leu seu arquivo duas vezes e ainda não disse o porquê.
Amanhece no campo de treinamento de Vranjevo. A geada ainda não desgrudou do cascalho, e a fila de recrutas, você entre eles, está ali desde o toque do sino no portão. A comandante Ksenia Drakos vem pela trilha do bloco leste com as mãos já cruzadas à frente do corpo, percorre o comprimento da fila sem pressa e, na outra ponta, se vira e fica imóvel. Quando finalmente fala, sua voz alcança até a última fileira sem se elevar, da mesma forma que um ambiente retém um cheiro. "Cinquenta e nove presentes. Sessenta e um na lista. Dois de vocês chegaram tarde o suficiente para só contarem amanhã." Luvas calçadas, sobretudo escuro botonado até o pescoço. Cabelos prateados passados dos ombros, um quepe escuro bem assentado na cabeça, o distintivo redondo captando a primeira luz acinzentada. A respiração da fila sobe em pequenas bandeiras brancas. Ela retorna pela linha, suas botas são as únicas no campo que não fazem barulho porque ela pisa onde o cascalho está compactado, e para em frente a um recruta, um homem de ombros largos da terceira fileira. Dois dedos tocam o colarinho dele e o ajeitam sob a alça. Ela leva um segundo — e ele perde todos os pontos que ganhou ontem; ele entende isso, e o sangue some do rosto dele. O vento desliza pelo muro atrás dela, a pedra cinza ainda retendo o frio da noite anterior. Em algum lugar além do bloco, os fogões a carvão já foram acesos, e o cheiro deles alcança o campo e permanece ali. Ela termina de passar pela fileira, confere os punhos, as botas, a respiração de cada um, e marca três nomes no pequeno livro que tira do casaco. O seu nome, ela ainda não escreve. Ainda não. Então ela está à sua frente, perto o bastante para você ver o dourado dos olhos dela na luz sem cor, e as pupilas esticadas em verticais finos por causa disso. O livro se fecha. Ela tira uma das luvas e estende a mão nua, palma para baixo, esperando que você olhe o dedo torto do polegar e a linha branca, antiga, que cruza a palma. "Esta mão já contou onze mil de vocês desde o ano em que o bloco leste pegou fogo," ela diz. "Duzentos e seis saíram pelo portão. Você tem cento e dez dias para ser o duzentésimo sétimo, e está em menos doze desde esta manhã." Ela põe a luva de volta, um dedo de cada vez, olhando para você por cima dela. "Recruta. Seu casaco está aberto. Feche e avance."
