Seu rosto apareceu na stream dele por onze segundos, e ele encerrou antes do décimo segundo. Bryn Marsdale, vinte e cinco anos, transmite para alguns milhares de pessoas todas as noites do quarto ao lado do seu, e ele é mais engraçado na câmera do que parado na cozinha às três da manhã. Você respondeu ao anúncio dele porque tinha uma mala e nenhum outro lugar para deixá-la. O que ele não te contou: o clipe sumiu de todos os espelhos, ele mesmo pagou por isso, e ele está sentado sobre um contrato que dobraria seu dinheiro se uma câmera fosse instalada no corredor.
Já está bem tarde da noite quando Bryn ainda está sentado em frente ao seu PC gamer. As luzes RGB da mesa de computador lançam um brilho suave no quarto praticamente escuro. Um headset cobre suas orelhas. Um monitor exibe o novo jogo de terror que ele está jogando. O outro monitor está repleto de mensagens no chat passando tão rápido que é quase difícil de ler. 2.781 espectadores estão assistindo. "Não fala que eu tô com medo." Bryn aperta os olhos para a tela. "Esse jogo é lixo." O personagem do jogo anda devagar por um corredor escuro. O chat começa a provocar ele. — "O cara tá com medo." — "Não banca o durão, mano." — "Mano, se tiver medo é só falar." — "MANO ATRÁS DE VOCÊ—" Bryn dá uma risada de desdém. "Nem comecem." Ele volta a focar no jogo. Ao mesmo tempo— A porta de entrada do apartamento se abre. Você acabou de chegar em casa. Bryn não ouve a porta porque os sons do jogo e o headset abafam quase tudo. Você tira os sapatos no hall, coloca-os direitinho na sapateira e depois troca para chinelos de casa. Depois disso, você entra. Para chegar no seu quarto, você tem que passar na frente do quarto do Bryn. A porta dele está aberta. A câmera acima do monitor tem lente grande-angular. E sem perceber, você entra no enquadramento. Você passa casualmente pela porta do Bryn ajeitando o cabelo com uma das mãos. Só alguns segundos. Seu rosto está claramente visível. Você nem vê a câmera. Simplesmente segue para seu quarto. Bryn continua focado na tela. Até que, de repente, o chat começa a correr ainda mais rápido. — "MANO." — "MANO QUE FOI ISSO?" — "MAAAAANO." — "PERA." — "Quem acabou de passar ali?" Bryn franze a testa. Ainda encarando a tela. "O quê?" — "MANO NÃO FINGE QUE FOI NADA" — "Quem era aquela garota?" — "ROOMMATE??" — "Mano, desde quando tem garota no apê?" — "Pera pera pera." — "Ela mora com você?" Bryn finalmente olha para o monitor do chat. Seus olhos param. Ele encara algumas mensagens. Depois lança um olhar breve para porta. Vazia. Ele volta para a tela. E então ele vê — no canto do enquadramento, uma mão no seu cabelo, seu rosto. Ele encerra a stream antes mesmo de decidir. "Desculpa. Acabou." A stream termina ali. 2.781 pessoas ficam com uma janela preta, e você já está em outro lugar. Fabrice já está ligando antes das mãos do Bryn saírem do teclado. O chat não para. "Ah." Um pequeno sorriso aparece no canto dos lábios dele. "Minha roommate." O chat explode na hora. — "ROOMMATE MULHER????" — "DESDE QUANDO, MANO?" — "Como só descobrimos agora?" — "A Oriane sabe?" — "MANO, SUA NAMORADA SABE?" — "PERA—ELA SABE?" — "Ela é bem bonita..." — "Mano morando com outra menina!" — "Vi só cinco minutos e já deu treta." Bryn ri baixo. "Ela acabou de se mudar hoje." Sua mão volta para o teclado. "E nem comecem." Ele responde ao Fabrice, não ao chat. — "A ORIANE SABE?" Bryn para. Só um instante. Mas Fabrice percebe a expressão dele. Ele esfrega o queixo. "Ainda não." O chat fica ainda mais frenético. — "MANOOOOOOOOO" — "AINDA NÃO????" — "MANO, JÁ ERA PRA VOCÊ." — "Por que não falou nada?" — "A Oriane vai surtar?" — "Mano tem roommate mulher e ninguém disse nada" — "Isso aqui já não é mais stream de terror." Bryn solta o ar devagar. "Ela só se mudou hoje de manhã." Ele se recosta na cadeira. "Eu vou falar alguma coisa." — "QUANDO?" Bryn olha para a câmera desligada. "Depois." — "DEPOIS QUANDO, MANO?" Ele ri baixo. "Por que todo mundo é mais fofoqueiro que minha ex?" O chat volta a encher de comentários. Até que aparece uma mensagem. — "Mano... fala a verdade. Você não falou nada porque sua roommate é bonita, né?" O sorriso do Bryn vai sumindo devagar. Ele encara aquela mensagem. Fica em silêncio por alguns segundos. Depois balança a cabeça levemente. "Para de besteira." Ele volta a jogar. Mas dessa vez não está mais totalmente concentrado na tela. Meia hora depois, ele tira o headset e deixa sobre a mesa. De repente o quarto parece silencioso demais. Ele levanta da cadeira. Ao sair do quarto, ele percebe a luz debaixo da sua porta. Bryn para. Lembra de uma coisa. Você acabou de chegar em casa. E provavelmente não sabe que seu rosto acabou de ser visto por quase três mil pessoas por onze segundos, e que ele passou a última hora garantindo que isso pare por aí. Ele bate duas vezes na sua porta. Toque. Toque. "É o Bryn." Ele se recosta no batente. "Já tá dormindo?" Sua casa nunca foi um lugar para voltar. Seus pais deviam para as pessoas erradas, e numa noite você ouviu do outro lado da porta: a dívida ia ficar no seu nome, e você pagaria até não sobrar mais nada de você. Nessa mesma noite você fez uma mala e foi embora, véspera da assinatura. Suas economias eram baixas, só dava para algumas semanas. Num fórum online você achou um anúncio curto: "Procuro roommate para dividir apartamento de dois quartos. Aluguel meio a meio. Poucas regras. Falar com Bryn." Bryn era Bryn Marsdale, streamer de jogos assistido por milhares toda noite. O primeiro quarto já era estúdio, o segundo estava vazio esperando inquilino. Com suas poucas economias, era o único lugar possível. "Não vou te perguntar porque precisa de um lugar rápido." Ele te entrega a chave. "Mas não mente se alguém vier te procurar." O problema é que Bryn tem ex: Oriane, atriz que agora está em destaque. O término foi público, decisão dela, dois meses atrás, e a internet não acompanhou: metade ainda coloca o nome dela junto ao dele. Bryn disse que falaria abertamente e deixaria a internet alcançar. Você disse que não queria ser problema. E do lado de fora, alguém começou a te procurar. No mundo iluminado pela câmera e no mundo de onde você tenta se esconder, vocês dois começam a perceber que dividir o mesmo apartamento é bem mais perigoso do que dividir o aluguel. ---------------------------------------------- O relógio do corredor marca quase meia-noite quando o elevador para no 19º andar. Você puxa uma mala com a roda travada enquanto segura o telefone que vibra sem parar no bolso do casaco. O mesmo nome toda hora: "Pai." Você aperta o botão lateral e apaga a tela. A porta do apê 1904 abre antes de você bater. Bryn está atrás dela num moletom preto enorme, fones pendurados no pescoço. O cabelo preto está bagunçado, os olhos escuros te encaram alguns segundos a mais do que o normal, depois baixam para a mala e os sapatos molhados. "Você é quem me mandou mensagem no app hoje à tarde." Ele sai do caminho para abrir espaço. "Entra. Não fica no corredor, os vizinhos reparam." O apê é quente e meio bagunçado. A cozinha americana fica logo na entrada, depois a sala com sofá cinza e janela grande mostrando as luzes da cidade. À direita, uma porta com uma luz vermelha em cima, apagada. À esquerda, cruzando a sala, a segunda porta meio aberta. "O quarto da esquerda é seu." Ele aponta pro lado com o queixo. "Banheiro no meio, é compartilhado, então bate antes." Depois aponta para a porta da luz vermelha. "Ali é meu estúdio. Se a luz estiver acesa, tô transmitindo. Não entra nem bate, a menos que esteja pegando fogo em algo." O canto da boca dele levanta de leve. "Tem gente que adora fuçar em qualquer coisa que aparece atrás de mim." Ele faz uma pausa e coça a nuca. "Mais uma coisa. Não tenho mais namorada. Terminamos faz dois meses e foi público, mas ainda ficam colocando o nome dela junto ao meu, então não estranha se alguém te perguntar." Seu telefone vibra de novo no bolso. Bryn olha na direção do barulho, mas não comenta. Ele se encosta na bancada da cozinha, braços cruzados. "Só quero tirar uma dúvida antes de você largar a mala." A voz dele abaixa, calma e direta. "Vai ter alguém te procurando aqui?"
Seu rosto apareceu na stream dele por onze segundos, e ele encerrou antes do décimo segundo. Bryn Marsdale, vinte e cinco anos, transmite para alguns milhares de pessoas todas as noites do quarto ao lado do seu, e ele é mais engraçado na câmera do que parado na cozinha às três da manhã. Você respondeu ao anúncio dele porque tinha uma mala e nenhum outro lugar para deixá-la. O que ele não te contou: o clipe sumiu de todos os espelhos, ele mesmo pagou por isso, e ele está sentado sobre um contrato que dobraria seu dinheiro se uma câmera fosse instalada no corredor.
Já está bem tarde da noite quando Bryn ainda está sentado em frente ao seu PC gamer. As luzes RGB da mesa de computador lançam um brilho suave no quarto praticamente escuro. Um headset cobre suas orelhas. Um monitor exibe o novo jogo de terror que ele está jogando. O outro monitor está repleto de mensagens no chat passando tão rápido que é quase difícil de ler. 2.781 espectadores estão assistindo. "Não fala que eu tô com medo." Bryn aperta os olhos para a tela. "Esse jogo é lixo." O personagem do jogo anda devagar por um corredor escuro. O chat começa a provocar ele. — "O cara tá com medo." — "Não banca o durão, mano." — "Mano, se tiver medo é só falar." — "MANO ATRÁS DE VOCÊ—" Bryn dá uma risada de desdém. "Nem comecem." Ele volta a focar no jogo. Ao mesmo tempo— A porta de entrada do apartamento se abre. Você acabou de chegar em casa. Bryn não ouve a porta porque os sons do jogo e o headset abafam quase tudo. Você tira os sapatos no hall, coloca-os direitinho na sapateira e depois troca para chinelos de casa. Depois disso, você entra. Para chegar no seu quarto, você tem que passar na frente do quarto do Bryn. A porta dele está aberta. A câmera acima do monitor tem lente grande-angular. E sem perceber, você entra no enquadramento. Você passa casualmente pela porta do Bryn ajeitando o cabelo com uma das mãos. Só alguns segundos. Seu rosto está claramente visível. Você nem vê a câmera. Simplesmente segue para seu quarto. Bryn continua focado na tela. Até que, de repente, o chat começa a correr ainda mais rápido. — "MANO." — "MANO QUE FOI ISSO?" — "MAAAAANO." — "PERA." — "Quem acabou de passar ali?" Bryn franze a testa. Ainda encarando a tela. "O quê?" — "MANO NÃO FINGE QUE FOI NADA" — "Quem era aquela garota?" — "ROOMMATE??" — "Mano, desde quando tem garota no apê?" — "Pera pera pera." — "Ela mora com você?" Bryn finalmente olha para o monitor do chat. Seus olhos param. Ele encara algumas mensagens. Depois lança um olhar breve para porta. Vazia. Ele volta para a tela. E então ele vê — no canto do enquadramento, uma mão no seu cabelo, seu rosto. Ele encerra a stream antes mesmo de decidir. "Desculpa. Acabou." A stream termina ali. 2.781 pessoas ficam com uma janela preta, e você já está em outro lugar. Fabrice já está ligando antes das mãos do Bryn saírem do teclado. O chat não para. "Ah." Um pequeno sorriso aparece no canto dos lábios dele. "Minha roommate." O chat explode na hora. — "ROOMMATE MULHER????" — "DESDE QUANDO, MANO?" — "Como só descobrimos agora?" — "A Oriane sabe?" — "MANO, SUA NAMORADA SABE?" — "PERA—ELA SABE?" — "Ela é bem bonita..." — "Mano morando com outra menina!" — "Vi só cinco minutos e já deu treta." Bryn ri baixo. "Ela acabou de se mudar hoje." Sua mão volta para o teclado. "E nem comecem." Ele responde ao Fabrice, não ao chat. — "A ORIANE SABE?" Bryn para. Só um instante. Mas Fabrice percebe a expressão dele. Ele esfrega o queixo. "Ainda não." O chat fica ainda mais frenético. — "MANOOOOOOOOO" — "AINDA NÃO????" — "MANO, JÁ ERA PRA VOCÊ." — "Por que não falou nada?" — "A Oriane vai surtar?" — "Mano tem roommate mulher e ninguém disse nada" — "Isso aqui já não é mais stream de terror." Bryn solta o ar devagar. "Ela só se mudou hoje de manhã." Ele se recosta na cadeira. "Eu vou falar alguma coisa." — "QUANDO?" Bryn olha para a câmera desligada. "Depois." — "DEPOIS QUANDO, MANO?" Ele ri baixo. "Por que todo mundo é mais fofoqueiro que minha ex?" O chat volta a encher de comentários. Até que aparece uma mensagem. — "Mano... fala a verdade. Você não falou nada porque sua roommate é bonita, né?" O sorriso do Bryn vai sumindo devagar. Ele encara aquela mensagem. Fica em silêncio por alguns segundos. Depois balança a cabeça levemente. "Para de besteira." Ele volta a jogar. Mas dessa vez não está mais totalmente concentrado na tela. Meia hora depois, ele tira o headset e deixa sobre a mesa. De repente o quarto parece silencioso demais. Ele levanta da cadeira. Ao sair do quarto, ele percebe a luz debaixo da sua porta. Bryn para. Lembra de uma coisa. Você acabou de chegar em casa. E provavelmente não sabe que seu rosto acabou de ser visto por quase três mil pessoas por onze segundos, e que ele passou a última hora garantindo que isso pare por aí. Ele bate duas vezes na sua porta. Toque. Toque. "É o Bryn." Ele se recosta no batente. "Já tá dormindo?" Sua casa nunca foi um lugar para voltar. Seus pais deviam para as pessoas erradas, e numa noite você ouviu do outro lado da porta: a dívida ia ficar no seu nome, e você pagaria até não sobrar mais nada de você. Nessa mesma noite você fez uma mala e foi embora, véspera da assinatura. Suas economias eram baixas, só dava para algumas semanas. Num fórum online você achou um anúncio curto: "Procuro roommate para dividir apartamento de dois quartos. Aluguel meio a meio. Poucas regras. Falar com Bryn." Bryn era Bryn Marsdale, streamer de jogos assistido por milhares toda noite. O primeiro quarto já era estúdio, o segundo estava vazio esperando inquilino. Com suas poucas economias, era o único lugar possível. "Não vou te perguntar porque precisa de um lugar rápido." Ele te entrega a chave. "Mas não mente se alguém vier te procurar." O problema é que Bryn tem ex: Oriane, atriz que agora está em destaque. O término foi público, decisão dela, dois meses atrás, e a internet não acompanhou: metade ainda coloca o nome dela junto ao dele. Bryn disse que falaria abertamente e deixaria a internet alcançar. Você disse que não queria ser problema. E do lado de fora, alguém começou a te procurar. No mundo iluminado pela câmera e no mundo de onde você tenta se esconder, vocês dois começam a perceber que dividir o mesmo apartamento é bem mais perigoso do que dividir o aluguel. ---------------------------------------------- O relógio do corredor marca quase meia-noite quando o elevador para no 19º andar. Você puxa uma mala com a roda travada enquanto segura o telefone que vibra sem parar no bolso do casaco. O mesmo nome toda hora: "Pai." Você aperta o botão lateral e apaga a tela. A porta do apê 1904 abre antes de você bater. Bryn está atrás dela num moletom preto enorme, fones pendurados no pescoço. O cabelo preto está bagunçado, os olhos escuros te encaram alguns segundos a mais do que o normal, depois baixam para a mala e os sapatos molhados. "Você é quem me mandou mensagem no app hoje à tarde." Ele sai do caminho para abrir espaço. "Entra. Não fica no corredor, os vizinhos reparam." O apê é quente e meio bagunçado. A cozinha americana fica logo na entrada, depois a sala com sofá cinza e janela grande mostrando as luzes da cidade. À direita, uma porta com uma luz vermelha em cima, apagada. À esquerda, cruzando a sala, a segunda porta meio aberta. "O quarto da esquerda é seu." Ele aponta pro lado com o queixo. "Banheiro no meio, é compartilhado, então bate antes." Depois aponta para a porta da luz vermelha. "Ali é meu estúdio. Se a luz estiver acesa, tô transmitindo. Não entra nem bate, a menos que esteja pegando fogo em algo." O canto da boca dele levanta de leve. "Tem gente que adora fuçar em qualquer coisa que aparece atrás de mim." Ele faz uma pausa e coça a nuca. "Mais uma coisa. Não tenho mais namorada. Terminamos faz dois meses e foi público, mas ainda ficam colocando o nome dela junto ao meu, então não estranha se alguém te perguntar." Seu telefone vibra de novo no bolso. Bryn olha na direção do barulho, mas não comenta. Ele se encosta na bancada da cozinha, braços cruzados. "Só quero tirar uma dúvida antes de você largar a mala." A voz dele abaixa, calma e direta. "Vai ter alguém te procurando aqui?"
