O melhor jogador do campus passou dois anos assumindo que você nunca iria embora, e hoje à noite ele te viu sair da academia sem dizer uma palavra.
Weston Quintrell gostava de jogos que terminavam de forma decisiva. Nada de placares apertados. Nada de prorrogação. Nada de últimos segundos em que, de repente, algum arremesso de sorte decidia se você seria celebrado ou motivo de piada pelos próximos três dias. Uma diferença de vinte e um pontos. Ele conseguia lidar com isso. A academia ainda estava barulhenta, mesmo após quase dez minutos do apito final. A música trovejava pelos alto-falantes. Estudantes se amontoavam nas arquibancadas. Em algum lugar alguém gritava seu nome. Weston ignorava, na maioria das vezes. Já estava acostumado. Puxou um pouco a camisa preta do corpo e enxugou o rosto com o tecido. O suor grudava na nuca. O cabelo de cima, mais comprido, estava todo bagunçado e caía parcialmente sobre a testa, enquanto as laterais do corte undercut, bem raspadas, brilhavam úmidas. “Quintrell!” Weston levantou uma mão. Só isso. E aparentemente, era o bastante. A arquibancada explodiu em aplausos de novo. Denzil apareceu ao lado e deu um tapa tão forte em seu ombro que Weston chegou a dar meio passo para o lado. “Seu desgraçado nojento.” Weston sorriu. “A inveja não combina com você.” “Eu fiz doze pontos.” “Fofo.” Denzil parou de repente. “Fofo?” Weston ergueu uma sobrancelha. A pequena barra de prata nela captou a luz do teto da academia por um instante. “Quer um certificado?” Denzil mostrou o dedo do meio. Weston riu. Barney apareceu por trás e passou um braço em volta dos dois. “Hoje à noite lá no Dacey’s.” Weston fez uma careta. “O Dacey destruiu metade da casa da última vez.” “Então a outra metade ainda tá lá.” “Argumento convincente.” Harold veio caminhando, um pouco mais devagar, atrás deles. Como sempre. Sem gritos. Sem comemoração exagerada. Só aquele sorrisinho de lado, que para o Harold já devia contar como um pico emocional. Kenneth, ao contrário, parecia que tinha acabado de ganhar o campeonato sozinho. “Vocês ouviram o barulho que eles fizeram?” Denzil olhou pra ele. “Não, Kenneth. Infelizmente a gente nem tava aqui.” “Vai se foder.” Weston bufou. O olhar dele passou automaticamente pelas arquibancadas. Não de forma consciente. Pelo menos era o que ele dizia a si mesmo. Ainda sabia exatamente o que procurava. Você. Ali. Algumas fileiras abaixo. Weston te encontrou imediatamente. Como sempre. Por agora, já era tão natural quanto respirar. Ele não precisava pensar onde você estava sentada. Não precisava procurar. O olhar simplesmente te achava. Um sorriso discreto cruzou seus lábios. Ótimo. Você tinha ficado. Claro que tinha ficado. Afinal, Weston tinha dito de manhã que ia ficar com o time mais um pouco depois do jogo. Uns vinte minutos. Meia hora no máximo. Depois vocês iriam embora juntos. Pelo menos esse era o plano. “Weston!” Uma voz feminina cortou seus pensamentos. Ele conhecia. Claro. Cagney. Weston virou a cabeça a tempo antes de dois braços se enrolarem ao redor do seu pescoço. Cagney Haddington cheirava a um perfume absurdamente caro. Doce. Quente. E claramente forte demais quando ela praticamente pendurava aquilo na tua cara. “Você foi incrível.” Weston segurou automaticamente o braço dela pra não perder o equilíbrio. “Eu sei.” Cagney se afastou só o suficiente pra olhar pra ele. “Modesto como sempre.” “Pra quê fingir modéstia?” Ela riu. Denzil gemeu teatralmente atrás dele. “Ai Deus. Agora ela vai inflar o ego dele também.” “Como se coubesse mais alguma coisa nele.” Harold murmurou algo ininteligível. Weston ignorou todos. Menos Cagney. Ela ainda estava perto demais. Uma mão sobre o ombro dele. A outra passando pelo braço. Bem em cima das linhas escuras da tatuagem dele. Weston percebeu. Claro que percebeu. Não era cego. Mas se afastou. Por que não faria isso? Cagney era Cagney. Sempre foi assim. Contato físico não significava nada com ela. Mas pra você, significava. “Você tá todo suado.” Ela fez uma careta. Weston sorriu. “E mesmo assim tá grudada.” “Vai ver eu gosto de você assim.” Denzil fez um som de engasgo. “Vão pro quarto.” Weston olhou por cima do ombro de Cagney pra ele. “Com ciúmes?” “Dela?” Denzil apontou pra Cagney. “Nunca.” Cagney virou meio corpo pra ele. “Você ia adorar se eu pelo menos olhasse pra você.” “Tá olhando agora.” “Infelizmente.” Barney riu. Kenneth também. Até Weston teve que sorrir. Cagney aproveitou o momento pra se aproximar mais ainda. A mão dela foi do ombro ao pescoço dele. Depois pelos cabelos mais longos na cabeça. Weston fez uma careta. “Tira a mão.” “Por quê?” “Porque você tá piorando.” “Tô salvando.” “Tá estragando.” “Mesma coisa, só que melhor.” Mesmo assim ela passou os dedos mais uma vez. Weston finalmente afastou a mão dela. Não com força. Só de leve. Cagney sorriu como se tivesse vencido. Tanto faz. Weston olhou de novo pras arquibancadas. Você ainda estava ali. O olhar dele travou um instante. Tinha algo diferente. Não era óbvio. Não tinha cena. Nem raiva visível. Na verdade, era o contrário. Calma. Calma demais, talvez. Weston franziu a testa. Denzil notou também. Óbvio. Aquilo era a especialidade dele: comentar o que não era da conta dele. “É.” Weston olhou pra ele. “O quê?” “Nada.” “Então cala a porra da boca.” “Eu nem falei nada.” “Teu rosto falou.” Denzil sorriu. “Só pensei que você vai se ferrar de novo hoje.” Cagney inclinou a cabeça. “Por minha causa?” Barney riu. “Por causa de quem mais?” Weston revirou os olhos. “Eu não vou me ferrar.” Denzil olhou pra ele. Depois pra arquibancada. Depois voltou pra Weston. O sorriso aumentou. “Claro que não.” “O que isso quer dizer?” “Nada não.” “Denzil.” “Mas é verdade.” Denzil levantou as duas mãos. “Você faz o que quer mesmo.” Kenneth sorriu, Barney também. Weston podia ter retrucado. Não retrucou. Porque... bem. Denzil não estava totalmente errado. Weston já estava com você há quase dois anos. Dois anos. Mais tempo do que qualquer relacionamento dos amigos dele. E, nesse tempo, já tinham discutido. Mais de uma vez. Por festas. Pelos amigos dele. Pela Cagney. Por mensagens. Por fotos. Por coisas que Weston geralmente já não achava importante dez minutos depois. E ainda assim, vocês sempre ficavam juntos. Porque se amavam. Simples assim. Você conhecia ele. Sabia como ele era. E Weston nunca prometeu que ia virar modelo de namorado perfeito só por estar num relacionamento. Ele saia pra festas. Às vezes flertava. Já deixou ser tocado antes. Agora, não mais. Ele ainda ia embora com você. Beijava você. Dormia do seu lado. Comprava coisas quando sabia que tinha pisado na bola. Já até sabia que cafézinho ia visitar amanhã porque você gostava daquele doce de lá. Weston se importava. Do jeito dele. Isso tinha que contar pra alguma coisa, né. “Quintrell.” Denzil estalou os dedos na frente do rosto dele. Weston afastou a mão dele. “O quê?” “A Cagney perguntou se você vai hoje.” Weston olhou pra ela. Agora ela estava do lado dele. Uma mão repousava levemente no ombro. “No Dacey’s?” “Mhm.” “Talvez.” O canto da boca de Cagney subiu. “Isso é sim.” “Isso é talvez.” “Com você, talvez sempre é sim.” “Teoria interessante.” Ela se inclinou um pouco mais pra perto. “Tô testando.” Weston olhou pras arquibancadas de novo. Você tinha se mexido. Não muito. Mas o suficiente. Denzil viu também. “Ah.” Weston lançou um olhar. “O quê agora?” Denzil mordeu a bochecha por dentro pra não rir. “Nada.” “Fala.” “Acho que teu fã-clube cansou.” Weston olhou de novo. A testa franziu um pouco. Ele não gostou. Não porque achasse que algo de fato estava acontecendo. Só porque não queria ter que discutir depois sobre a Cagney ter encostado nele. De novo. Como se Weston tivesse pedido. “Sério.” Denzil chegou mais perto. “Como que você aguenta?” Weston olhou pra ele. “O quê?” Denzil indicou discretamente a arquibancada. “Esse negócio de ciúme o tempo todo.” Harold levantou a cabeça na hora. “Denzil.” “O quê?” “Deixa quieto.” Denzil ignorou. Como sempre. “Eu disse pra deixar.” “Eu piraria.” Barney assentiu. “Um pouco, né.” Weston podia encerrar o assunto. Só uma frase. Cala a boca. Acabou. Mas não fez isso. Apenas deu de ombros. “Você se acostuma.” Denzil riu. Barney também. Kenneth sorriu sem certeza. Cagney sorriu. Harold não. Weston percebeu. Aquele apertar reprovador nas sobrancelhas. “Não faz essa cara.” Harold cruzou os braços. “Que cara?” “Essa de terapeuta.” “Deus me livre.” Denzil riu de novo. Weston também. Só por um instante. Depois olhou de novo pra você. E dessa vez o sorriso sumiu mais rápido. Porque você não parecia igual. Normalmente Weston sabia bem quando vinha problema. Sabia todos os sinais. A tensão do corpo. O olhar. O jeito que você ficava distante. O clima no carro. O silêncio. Tudo isso. Mas dessa vez não tinha nada disso. Nenhum ciúme visível. Nenhuma raiva aparente. Nem reação irritada por causa da Cagney. Nada. Weston devia estar aliviado. Era exatamente o que ele queria há meses, na real. Não ter discussão. Nem drama. Nem: Por que você deixa ela fazer isso? Nem: E se fosse eu? Nenhuma briga sobre coisas que Weston julgava insignificantes. Perfeito. Por que então aquilo incomodava tanto? Cagney puxou o braço dele. “Vem.” Weston olhou pra ela. “Pra onde?” “Foto.” “Não.” “Weston.” “Cagney.” “Só uma.” “Você vai postar mesmo assim.” “Lógico.” “Então aí é que não.” Mesmo assim ela puxou. Denzil gritou: “Vai lá, princesa.” Weston mostrou o dedo do meio pra ele. Cagney já se posicionava na frente. Aí do lado. Uma mão no peito dele. O corpo colado no lado dele. Weston suspirou. “Cinco segundos.” Ela sorriu. “Não preciso de mais.” Alguém levantou um celular. Weston olhou pra câmera. Aquele sorriso típico, meio entediado, meio convencido. Cagney apoiou a cabeça no ombro dele. Click. Outra. A mão dela subiu. Click. Na terceira foto ela simplesmente beijou a bochecha dele. Weston piscou. “Sério?” Cagney se afastou rindo. “Ficou fofo.” Denzil assobiou. Barney caiu na gargalhada. Kenneth tapou a boca. E Weston? Weston não riu nem um pouco. Porque a situação era ridícula. Porque Cagney sorria. Porque Denzil fez piada sobre o batom na orelha dele. Porque era mais fácil olhar pro chão. Depois olhou pras arquibancadas. E você não estava mais lá. O sorriso de Weston ficou um instante. Talvez dois segundos. Depois sumiu. Procurou na fileira. Nada. O olhar escorregou pra saída. Sem ideia de quando você tinha ido embora. Merda. “O quê?” Denzil, claro, percebeu na hora que Weston já não estava mais ouvindo. “Nada.” Weston pegou a bolsa esportiva. Harold olhou pras arquibancadas. Depois pra Weston. “Sumiu.” Weston olhou de volta. “Vi.” “É.” Weston jogou a bolsa no ombro. Cagney franziu a testa. “Vai aonde?” “Me trocar.” “A gente ia—” “Depois.” Saiu. Sem pressa. De verdade. Weston Quintrell não corria atrás de ninguém. Principalmente quando não havia motivo. Você provavelmente só tinha ido até o estacionamento. Ou no banheiro. Ou alguém mandou mensagem. Sem drama. Tudo bem. E mesmo que tivesse brava... Weston sabia como funcionava. Ia passar na sua casa depois. Talvez parasse antes naquela lojinha. Você gostava das pulseiras de prata. Ou ia levar comida. Algo doce. Umas palavras. Um beijo. Pronto. Sem pedido de desculpa. Weston abriu a porta do vestiário. Mas parou um instante. A voz do Harold, atrás. Tranquila. Calma demais. “Talvez você não devesse assumir que tudo sempre vai ser como sempre foi.” Weston virou a cabeça. “O que isso quer dizer?” Harold deu de ombros. “Só dizendo.” Weston bufou. “você me ama.” Harold olhou pra ele por alguns segundos. Sem sorriso. Sem piada. Nada. “Isso eu nunca duvidei.” Weston esperou. Harold passou por ele. Depois parou só um instante. “Mas talvez um dia amor não seja mais suficiente.” Weston riu baixinho. Não porque achasse engraçado. Mas porque a alternativa era absurda. Você não ia deixar ele. Sério mesmo. Talvez ficasse brava. Talvez não respondesse amanhã. Talvez ficasse de bico dois dias. Mas ir embora? Não. Weston te conhecia. Sabia que você o amava. Mais que tudo. E era justamente por isso que Weston tinha toda certeza: Não importava quantas vezes ele pisasse na bola. Não importava quantas vezes Cagney exagerasse. Não importava as piadas dos amigos. No fim das contas você ainda estaria lá. Weston só tinha que ser um pouco fofo de novo. Talvez um presente. Talvez flores. Talvez só aquele sorriso que ele sabia que você nunca resistia por muito tempo. Tudo controlado. Como sempre. Pelo menos era o que Weston acreditava.
O melhor jogador do campus passou dois anos assumindo que você nunca iria embora, e hoje à noite ele te viu sair da academia sem dizer uma palavra.
Weston Quintrell gostava de jogos que terminavam de forma decisiva. Nada de placares apertados. Nada de prorrogação. Nada de últimos segundos em que, de repente, algum arremesso de sorte decidia se você seria celebrado ou motivo de piada pelos próximos três dias. Uma diferença de vinte e um pontos. Ele conseguia lidar com isso. A academia ainda estava barulhenta, mesmo após quase dez minutos do apito final. A música trovejava pelos alto-falantes. Estudantes se amontoavam nas arquibancadas. Em algum lugar alguém gritava seu nome. Weston ignorava, na maioria das vezes. Já estava acostumado. Puxou um pouco a camisa preta do corpo e enxugou o rosto com o tecido. O suor grudava na nuca. O cabelo de cima, mais comprido, estava todo bagunçado e caía parcialmente sobre a testa, enquanto as laterais do corte undercut, bem raspadas, brilhavam úmidas. “Quintrell!” Weston levantou uma mão. Só isso. E aparentemente, era o bastante. A arquibancada explodiu em aplausos de novo. Denzil apareceu ao lado e deu um tapa tão forte em seu ombro que Weston chegou a dar meio passo para o lado. “Seu desgraçado nojento.” Weston sorriu. “A inveja não combina com você.” “Eu fiz doze pontos.” “Fofo.” Denzil parou de repente. “Fofo?” Weston ergueu uma sobrancelha. A pequena barra de prata nela captou a luz do teto da academia por um instante. “Quer um certificado?” Denzil mostrou o dedo do meio. Weston riu. Barney apareceu por trás e passou um braço em volta dos dois. “Hoje à noite lá no Dacey’s.” Weston fez uma careta. “O Dacey destruiu metade da casa da última vez.” “Então a outra metade ainda tá lá.” “Argumento convincente.” Harold veio caminhando, um pouco mais devagar, atrás deles. Como sempre. Sem gritos. Sem comemoração exagerada. Só aquele sorrisinho de lado, que para o Harold já devia contar como um pico emocional. Kenneth, ao contrário, parecia que tinha acabado de ganhar o campeonato sozinho. “Vocês ouviram o barulho que eles fizeram?” Denzil olhou pra ele. “Não, Kenneth. Infelizmente a gente nem tava aqui.” “Vai se foder.” Weston bufou. O olhar dele passou automaticamente pelas arquibancadas. Não de forma consciente. Pelo menos era o que ele dizia a si mesmo. Ainda sabia exatamente o que procurava. Você. Ali. Algumas fileiras abaixo. Weston te encontrou imediatamente. Como sempre. Por agora, já era tão natural quanto respirar. Ele não precisava pensar onde você estava sentada. Não precisava procurar. O olhar simplesmente te achava. Um sorriso discreto cruzou seus lábios. Ótimo. Você tinha ficado. Claro que tinha ficado. Afinal, Weston tinha dito de manhã que ia ficar com o time mais um pouco depois do jogo. Uns vinte minutos. Meia hora no máximo. Depois vocês iriam embora juntos. Pelo menos esse era o plano. “Weston!” Uma voz feminina cortou seus pensamentos. Ele conhecia. Claro. Cagney. Weston virou a cabeça a tempo antes de dois braços se enrolarem ao redor do seu pescoço. Cagney Haddington cheirava a um perfume absurdamente caro. Doce. Quente. E claramente forte demais quando ela praticamente pendurava aquilo na tua cara. “Você foi incrível.” Weston segurou automaticamente o braço dela pra não perder o equilíbrio. “Eu sei.” Cagney se afastou só o suficiente pra olhar pra ele. “Modesto como sempre.” “Pra quê fingir modéstia?” Ela riu. Denzil gemeu teatralmente atrás dele. “Ai Deus. Agora ela vai inflar o ego dele também.” “Como se coubesse mais alguma coisa nele.” Harold murmurou algo ininteligível. Weston ignorou todos. Menos Cagney. Ela ainda estava perto demais. Uma mão sobre o ombro dele. A outra passando pelo braço. Bem em cima das linhas escuras da tatuagem dele. Weston percebeu. Claro que percebeu. Não era cego. Mas se afastou. Por que não faria isso? Cagney era Cagney. Sempre foi assim. Contato físico não significava nada com ela. Mas pra você, significava. “Você tá todo suado.” Ela fez uma careta. Weston sorriu. “E mesmo assim tá grudada.” “Vai ver eu gosto de você assim.” Denzil fez um som de engasgo. “Vão pro quarto.” Weston olhou por cima do ombro de Cagney pra ele. “Com ciúmes?” “Dela?” Denzil apontou pra Cagney. “Nunca.” Cagney virou meio corpo pra ele. “Você ia adorar se eu pelo menos olhasse pra você.” “Tá olhando agora.” “Infelizmente.” Barney riu. Kenneth também. Até Weston teve que sorrir. Cagney aproveitou o momento pra se aproximar mais ainda. A mão dela foi do ombro ao pescoço dele. Depois pelos cabelos mais longos na cabeça. Weston fez uma careta. “Tira a mão.” “Por quê?” “Porque você tá piorando.” “Tô salvando.” “Tá estragando.” “Mesma coisa, só que melhor.” Mesmo assim ela passou os dedos mais uma vez. Weston finalmente afastou a mão dela. Não com força. Só de leve. Cagney sorriu como se tivesse vencido. Tanto faz. Weston olhou de novo pras arquibancadas. Você ainda estava ali. O olhar dele travou um instante. Tinha algo diferente. Não era óbvio. Não tinha cena. Nem raiva visível. Na verdade, era o contrário. Calma. Calma demais, talvez. Weston franziu a testa. Denzil notou também. Óbvio. Aquilo era a especialidade dele: comentar o que não era da conta dele. “É.” Weston olhou pra ele. “O quê?” “Nada.” “Então cala a porra da boca.” “Eu nem falei nada.” “Teu rosto falou.” Denzil sorriu. “Só pensei que você vai se ferrar de novo hoje.” Cagney inclinou a cabeça. “Por minha causa?” Barney riu. “Por causa de quem mais?” Weston revirou os olhos. “Eu não vou me ferrar.” Denzil olhou pra ele. Depois pra arquibancada. Depois voltou pra Weston. O sorriso aumentou. “Claro que não.” “O que isso quer dizer?” “Nada não.” “Denzil.” “Mas é verdade.” Denzil levantou as duas mãos. “Você faz o que quer mesmo.” Kenneth sorriu, Barney também. Weston podia ter retrucado. Não retrucou. Porque... bem. Denzil não estava totalmente errado. Weston já estava com você há quase dois anos. Dois anos. Mais tempo do que qualquer relacionamento dos amigos dele. E, nesse tempo, já tinham discutido. Mais de uma vez. Por festas. Pelos amigos dele. Pela Cagney. Por mensagens. Por fotos. Por coisas que Weston geralmente já não achava importante dez minutos depois. E ainda assim, vocês sempre ficavam juntos. Porque se amavam. Simples assim. Você conhecia ele. Sabia como ele era. E Weston nunca prometeu que ia virar modelo de namorado perfeito só por estar num relacionamento. Ele saia pra festas. Às vezes flertava. Já deixou ser tocado antes. Agora, não mais. Ele ainda ia embora com você. Beijava você. Dormia do seu lado. Comprava coisas quando sabia que tinha pisado na bola. Já até sabia que cafézinho ia visitar amanhã porque você gostava daquele doce de lá. Weston se importava. Do jeito dele. Isso tinha que contar pra alguma coisa, né. “Quintrell.” Denzil estalou os dedos na frente do rosto dele. Weston afastou a mão dele. “O quê?” “A Cagney perguntou se você vai hoje.” Weston olhou pra ela. Agora ela estava do lado dele. Uma mão repousava levemente no ombro. “No Dacey’s?” “Mhm.” “Talvez.” O canto da boca de Cagney subiu. “Isso é sim.” “Isso é talvez.” “Com você, talvez sempre é sim.” “Teoria interessante.” Ela se inclinou um pouco mais pra perto. “Tô testando.” Weston olhou pras arquibancadas de novo. Você tinha se mexido. Não muito. Mas o suficiente. Denzil viu também. “Ah.” Weston lançou um olhar. “O quê agora?” Denzil mordeu a bochecha por dentro pra não rir. “Nada.” “Fala.” “Acho que teu fã-clube cansou.” Weston olhou de novo. A testa franziu um pouco. Ele não gostou. Não porque achasse que algo de fato estava acontecendo. Só porque não queria ter que discutir depois sobre a Cagney ter encostado nele. De novo. Como se Weston tivesse pedido. “Sério.” Denzil chegou mais perto. “Como que você aguenta?” Weston olhou pra ele. “O quê?” Denzil indicou discretamente a arquibancada. “Esse negócio de ciúme o tempo todo.” Harold levantou a cabeça na hora. “Denzil.” “O quê?” “Deixa quieto.” Denzil ignorou. Como sempre. “Eu disse pra deixar.” “Eu piraria.” Barney assentiu. “Um pouco, né.” Weston podia encerrar o assunto. Só uma frase. Cala a boca. Acabou. Mas não fez isso. Apenas deu de ombros. “Você se acostuma.” Denzil riu. Barney também. Kenneth sorriu sem certeza. Cagney sorriu. Harold não. Weston percebeu. Aquele apertar reprovador nas sobrancelhas. “Não faz essa cara.” Harold cruzou os braços. “Que cara?” “Essa de terapeuta.” “Deus me livre.” Denzil riu de novo. Weston também. Só por um instante. Depois olhou de novo pra você. E dessa vez o sorriso sumiu mais rápido. Porque você não parecia igual. Normalmente Weston sabia bem quando vinha problema. Sabia todos os sinais. A tensão do corpo. O olhar. O jeito que você ficava distante. O clima no carro. O silêncio. Tudo isso. Mas dessa vez não tinha nada disso. Nenhum ciúme visível. Nenhuma raiva aparente. Nem reação irritada por causa da Cagney. Nada. Weston devia estar aliviado. Era exatamente o que ele queria há meses, na real. Não ter discussão. Nem drama. Nem: Por que você deixa ela fazer isso? Nem: E se fosse eu? Nenhuma briga sobre coisas que Weston julgava insignificantes. Perfeito. Por que então aquilo incomodava tanto? Cagney puxou o braço dele. “Vem.” Weston olhou pra ela. “Pra onde?” “Foto.” “Não.” “Weston.” “Cagney.” “Só uma.” “Você vai postar mesmo assim.” “Lógico.” “Então aí é que não.” Mesmo assim ela puxou. Denzil gritou: “Vai lá, princesa.” Weston mostrou o dedo do meio pra ele. Cagney já se posicionava na frente. Aí do lado. Uma mão no peito dele. O corpo colado no lado dele. Weston suspirou. “Cinco segundos.” Ela sorriu. “Não preciso de mais.” Alguém levantou um celular. Weston olhou pra câmera. Aquele sorriso típico, meio entediado, meio convencido. Cagney apoiou a cabeça no ombro dele. Click. Outra. A mão dela subiu. Click. Na terceira foto ela simplesmente beijou a bochecha dele. Weston piscou. “Sério?” Cagney se afastou rindo. “Ficou fofo.” Denzil assobiou. Barney caiu na gargalhada. Kenneth tapou a boca. E Weston? Weston não riu nem um pouco. Porque a situação era ridícula. Porque Cagney sorria. Porque Denzil fez piada sobre o batom na orelha dele. Porque era mais fácil olhar pro chão. Depois olhou pras arquibancadas. E você não estava mais lá. O sorriso de Weston ficou um instante. Talvez dois segundos. Depois sumiu. Procurou na fileira. Nada. O olhar escorregou pra saída. Sem ideia de quando você tinha ido embora. Merda. “O quê?” Denzil, claro, percebeu na hora que Weston já não estava mais ouvindo. “Nada.” Weston pegou a bolsa esportiva. Harold olhou pras arquibancadas. Depois pra Weston. “Sumiu.” Weston olhou de volta. “Vi.” “É.” Weston jogou a bolsa no ombro. Cagney franziu a testa. “Vai aonde?” “Me trocar.” “A gente ia—” “Depois.” Saiu. Sem pressa. De verdade. Weston Quintrell não corria atrás de ninguém. Principalmente quando não havia motivo. Você provavelmente só tinha ido até o estacionamento. Ou no banheiro. Ou alguém mandou mensagem. Sem drama. Tudo bem. E mesmo que tivesse brava... Weston sabia como funcionava. Ia passar na sua casa depois. Talvez parasse antes naquela lojinha. Você gostava das pulseiras de prata. Ou ia levar comida. Algo doce. Umas palavras. Um beijo. Pronto. Sem pedido de desculpa. Weston abriu a porta do vestiário. Mas parou um instante. A voz do Harold, atrás. Tranquila. Calma demais. “Talvez você não devesse assumir que tudo sempre vai ser como sempre foi.” Weston virou a cabeça. “O que isso quer dizer?” Harold deu de ombros. “Só dizendo.” Weston bufou. “você me ama.” Harold olhou pra ele por alguns segundos. Sem sorriso. Sem piada. Nada. “Isso eu nunca duvidei.” Weston esperou. Harold passou por ele. Depois parou só um instante. “Mas talvez um dia amor não seja mais suficiente.” Weston riu baixinho. Não porque achasse engraçado. Mas porque a alternativa era absurda. Você não ia deixar ele. Sério mesmo. Talvez ficasse brava. Talvez não respondesse amanhã. Talvez ficasse de bico dois dias. Mas ir embora? Não. Weston te conhecia. Sabia que você o amava. Mais que tudo. E era justamente por isso que Weston tinha toda certeza: Não importava quantas vezes ele pisasse na bola. Não importava quantas vezes Cagney exagerasse. Não importava as piadas dos amigos. No fim das contas você ainda estaria lá. Weston só tinha que ser um pouco fofo de novo. Talvez um presente. Talvez flores. Talvez só aquele sorriso que ele sabia que você nunca resistia por muito tempo. Tudo controlado. Como sempre. Pelo menos era o que Weston acreditava.
