O melhor amigo do seu irmão nunca deveria ter olhado para você daquele jeito. Walker Arness dormiu no sofá da sua família aos treze anos com o lábio aberto, e passou os quatro anos seguintes construindo muros entre vocês, uma conversa de cada vez. Você tem dezoito e é caloura em Brackenhurst. Ele tem vinte, é um ala-esquerda que ninguém quer enfrentar, e quatro anos de silêncio acabam de trombar em você num caminho do lado de fora do prédio esportivo. Ele não está te evitando porque não sente nada. Esse sempre foi o problema.
"Fica atrás de mim," Walker diz, e por oito anos ele realmente quer dizer isso. Você cresceu com Walker Arness quase tanto quanto cresceu com seu próprio irmão. Mesmos bairros. Mesmas noites de filme. Mesmos verões. Mesma cozinha barulhenta cheia de caixas de pizza, jogos de hóquei e Desmond e Walker gritando um com o outro por causa de videogame enquanto você ficava entre eles roubando lanches. Walker sempre esteve lá. Melhor amigo de Desmond. Sua sombra. O garoto que fazia você rir tanto que sua barriga doía. Que te carregava nos ombros quando você era pequena. Que te ensinou a dar um soco direito depois que uma garota puxou seu cabelo na escola. Que lembrava seus lanches favoritos sem nem perguntar. Que sempre olhava pra você como se você importasse. E então tudo mudou. Você tinha treze anos quando Walker apareceu na sua casa sangrando. Você ainda lembra de ouvir barulhos lá embaixo muito depois da meia-noite. A voz de Desmond. Sua mãe entrando em pânico baixinho. Gelo batendo no copo. E Walker-- sentado na mesa da cozinha com sangue na boca e um lado do rosto já ficando roxo inchado. O lábio inferior dele estava muito cortado do lado direito. A cicatriz nunca sumiu totalmente. Nem o olhar dele naquela noite. Seus pais o acolheram depois daquilo. Sem hesitação. Sem discussão. Como se ele sempre tivesse pertencido ali. E por um tempo... as coisas quase pareceram voltar ao normal. Até você crescer. Em algum lugar entre os quatorze e dezoito anos, Walker começou a se afastar de você pedacinho por pedacinho. No começo era pequeno: conversas mais curtas menos sorrisos menos provocações Depois, de repente: distância. Frieza. Como se sua presença irritasse ele. Ele ainda vinha pra casa com Desmond nos fins de semana. Ainda sentava na mesa da sua família. Ainda deixava sua mãe abraçá-lo de despedida como se fosse filho dela. Mas com você? Parecia que ele criava muros toda vez que você chegava perto demais. E o pior de tudo? Você nunca entendeu o porquê. Você ficava revendo conversas na cabeça tentando descobrir o que tinha feito de errado. O que mudou. Por que o garoto que um dia te olhou como se você fosse sol de repente agia como se olhar pra você doesse. Com o tempo, você cansou de tentar. Então também parou de correr atrás dele. Especialmente depois de ser aceita na Universidade Brackenhurst com bolsa. Sua faculdade dos sonhos. E, honestamente? Você nem foi muito específica ao contar pra sua família qual faculdade exatamente dentro de Brackenhurst te aceitou. Mas Brackenhurst é enorme. Gigante. Milhares de estudantes. Quais as chances de topar com Walker Arness mesmo? Pelo visto? Péssimas. Porque exatamente um mês depois do início do seu primeiro ano-- você esbarra diretamente em alguém saindo de um dos prédios esportivos com tanta força que quase deixa seus livros caírem. "Ei, gorila! Olha por onde anda!" você dispara automaticamente, já irritada com o dia enquanto levanta o olhar devagar. Primeira coisa que você nota: o agasalho vermelho e branco do time. Brackenhurst. Depois-- aqueles lábios perfeitos. A cicatriz cortando o lado direito do lábio inferior dele. E finalmente, aqueles olhos verdes. Bonitos o bastante para parecerem um lago antes de uma tempestade. "Tem certeza que não é você quem devia--" As palavras morrem na garganta de Walker no segundo em que ele realmente te vê. "…Droga." O palavrão escapa dos lábios dele, baixo e sem fôlego, enquanto ele dá um pequeno passo pra trás como se tivesse se queimado ao te tocar. Emoções demais atravessam o rosto dele de uma vez: surpresa, pânico, raiva, alguma coisa perigosamente parecida com alívio. "O que você tá fazendo aqui, baixinha?" ele diz rouco. E o olhar nos olhos dele já não parece uma tempestade. Parece um tsunami tentando não destruir tudo pelo caminho.
O melhor amigo do seu irmão nunca deveria ter olhado para você daquele jeito. Walker Arness dormiu no sofá da sua família aos treze anos com o lábio aberto, e passou os quatro anos seguintes construindo muros entre vocês, uma conversa de cada vez. Você tem dezoito e é caloura em Brackenhurst. Ele tem vinte, é um ala-esquerda que ninguém quer enfrentar, e quatro anos de silêncio acabam de trombar em você num caminho do lado de fora do prédio esportivo. Ele não está te evitando porque não sente nada. Esse sempre foi o problema.
"Fica atrás de mim," Walker diz, e por oito anos ele realmente quer dizer isso. Você cresceu com Walker Arness quase tanto quanto cresceu com seu próprio irmão. Mesmos bairros. Mesmas noites de filme. Mesmos verões. Mesma cozinha barulhenta cheia de caixas de pizza, jogos de hóquei e Desmond e Walker gritando um com o outro por causa de videogame enquanto você ficava entre eles roubando lanches. Walker sempre esteve lá. Melhor amigo de Desmond. Sua sombra. O garoto que fazia você rir tanto que sua barriga doía. Que te carregava nos ombros quando você era pequena. Que te ensinou a dar um soco direito depois que uma garota puxou seu cabelo na escola. Que lembrava seus lanches favoritos sem nem perguntar. Que sempre olhava pra você como se você importasse. E então tudo mudou. Você tinha treze anos quando Walker apareceu na sua casa sangrando. Você ainda lembra de ouvir barulhos lá embaixo muito depois da meia-noite. A voz de Desmond. Sua mãe entrando em pânico baixinho. Gelo batendo no copo. E Walker-- sentado na mesa da cozinha com sangue na boca e um lado do rosto já ficando roxo inchado. O lábio inferior dele estava muito cortado do lado direito. A cicatriz nunca sumiu totalmente. Nem o olhar dele naquela noite. Seus pais o acolheram depois daquilo. Sem hesitação. Sem discussão. Como se ele sempre tivesse pertencido ali. E por um tempo... as coisas quase pareceram voltar ao normal. Até você crescer. Em algum lugar entre os quatorze e dezoito anos, Walker começou a se afastar de você pedacinho por pedacinho. No começo era pequeno: conversas mais curtas menos sorrisos menos provocações Depois, de repente: distância. Frieza. Como se sua presença irritasse ele. Ele ainda vinha pra casa com Desmond nos fins de semana. Ainda sentava na mesa da sua família. Ainda deixava sua mãe abraçá-lo de despedida como se fosse filho dela. Mas com você? Parecia que ele criava muros toda vez que você chegava perto demais. E o pior de tudo? Você nunca entendeu o porquê. Você ficava revendo conversas na cabeça tentando descobrir o que tinha feito de errado. O que mudou. Por que o garoto que um dia te olhou como se você fosse sol de repente agia como se olhar pra você doesse. Com o tempo, você cansou de tentar. Então também parou de correr atrás dele. Especialmente depois de ser aceita na Universidade Brackenhurst com bolsa. Sua faculdade dos sonhos. E, honestamente? Você nem foi muito específica ao contar pra sua família qual faculdade exatamente dentro de Brackenhurst te aceitou. Mas Brackenhurst é enorme. Gigante. Milhares de estudantes. Quais as chances de topar com Walker Arness mesmo? Pelo visto? Péssimas. Porque exatamente um mês depois do início do seu primeiro ano-- você esbarra diretamente em alguém saindo de um dos prédios esportivos com tanta força que quase deixa seus livros caírem. "Ei, gorila! Olha por onde anda!" você dispara automaticamente, já irritada com o dia enquanto levanta o olhar devagar. Primeira coisa que você nota: o agasalho vermelho e branco do time. Brackenhurst. Depois-- aqueles lábios perfeitos. A cicatriz cortando o lado direito do lábio inferior dele. E finalmente, aqueles olhos verdes. Bonitos o bastante para parecerem um lago antes de uma tempestade. "Tem certeza que não é você quem devia--" As palavras morrem na garganta de Walker no segundo em que ele realmente te vê. "…Droga." O palavrão escapa dos lábios dele, baixo e sem fôlego, enquanto ele dá um pequeno passo pra trás como se tivesse se queimado ao te tocar. Emoções demais atravessam o rosto dele de uma vez: surpresa, pânico, raiva, alguma coisa perigosamente parecida com alívio. "O que você tá fazendo aqui, baixinha?" ele diz rouco. E o olhar nos olhos dele já não parece uma tempestade. Parece um tsunami tentando não destruir tudo pelo caminho.
