Três anos com você, uma pista, e ninguém fora deste prédio jamais soube. Venerio Ghirardelli compete em duplas pela universidade e passou três anos dividindo um flat, uma cama e um programa com você, enquanto dizia ao mundo que eram apenas colegas. Agora o campeonato está a quatro semanas, o parceiro da Nadia arrebentou o joelho, e Venerio decidiu, sozinho, em dois dias, que vai competir com ela no lugar. Ele pensou sobre o gelo. Ele não pensou sobre o que custa ouvir que você é algo que pode ser deixado de lado por quatro semanas.
Venerio estava adiando essa conversa há três dias. Não porque estivesse com medo. Pelo menos era isso que ele dizia a si mesmo. Ele simplesmente estava esperando o momento certo. Um momento em que você não estivesse estressada. Quando não estivessem bem no meio do treino. Quando ele pudesse explicar tudo pra ela direito. Agora, sentado no banco ao lado da pista de gelo e desamarrando os patins, Venerio teve que admitir que talvez o momento certo nem existisse. "Merda." Ele puxou os cadarços com mais força do que o necessário. A pista estava quase vazia. O treino regular tinha terminado há vinte minutos. Só alguém lá no fim do gelo ainda fazia voltas. O som das lâminas ecoava pelo salão grande. Normalmente, Venerio gostava desse horário do dia. Quando a maioria já tinha ido embora. Quando a música estava desligada. Quando só a luz fria dos refletores iluminava o gelo. Nos últimos três anos, essas horas acabaram virando as horas deles. Dele e suas. Venerio olhou brevemente para cima. Três anos. Caramba. Às vezes parecia bem menos tempo. Ele ainda se lembrava daquela noite horrível perfeitamente. Chuva. Frio. E uma garota sozinha na rua. Ele podia ter seguido dirigindo. Aliás, ele deveria ter seguido dirigindo. Venerio nunca levava estranhos pra casa como regra. Mas alguma coisa naquela noite fez ele parar. Uma noite só. Foi o que ele pensou na época. Uma noite no sofá dele. Na manhã seguinte, ajudaria ela a encontrar uma solução. Depois todo mundo voltaria pra sua vida. Venerio deu uma risadinha baixo. Ótimo plano. Três anos depois, o cereal dela estava no armário da cozinha dele. O shampoo dela ocupava espaço no chuveiro dele. Metade do armário dele fazia tempo que não era só dele. E na cama, agora tinha um lado em que Venerio praticamente nunca dormia mais. O lado dela. Quando exatamente isso aconteceu, ele não sabia. Assim como também não sabia quando os treinos casuais viraram algo que ele mal conseguia imaginar a vida sem. Você conhecia cada movimento dele. No gelo, às vezes Venerio nem precisava pedir qual movimento queria tentar. Um pequeno gesto de mão bastava. Um olhar. Um ajuste no peso do corpo. Eles se conheciam. De olhos fechados. Talvez fosse justamente por isso que essa conversa era tão desconfortável. Venerio tirou o primeiro patins. O celular dele vibrou ao lado. Ele olhou sem pensar. Nadia. Claro. Uma mensagem. "Coach disse amanhã às seis. Por favor, não se atrase. Não temos muito tempo ❤️" O canto da boca de Venerio quase levantou sozinho. Aquele maldito coração. Ele sabia que provavelmente não significava nada. Nadia sempre escrevia assim. Ela era simpática. Aberta. Quente. E comprometida. A última parte foi aquela que Venerio se acostumou a odiar durante anos. Mas ultimamente-- Ele olhou mais um segundo para a mensagem. Ultimamente, algo estava diferente. Nadia buscava a companhia dele mais vezes. Mandava mensagens. Queria treinar com ele. E anteontem, ela tinha dito que não confiava em ninguém no gelo como confiava nele. Venerio sabia que não deveria tirar conclusões disso. Mas tirava assim mesmo. Virou o celular de tela para baixo no banco. Por isso mesmo precisava contar pra você agora. Não podia esperar mais. O campeonato era em quatro semanas. Quatro malditas semanas. Na verdade, era pra Venerio e você patinarem juntos lá. Não era só pra ser. Eles tinham se classificado. Juntos. Treinaram a rotina por meses. Venerio sabia cada maldito compasso da música deles. Sabia quando tinha que te segurar. Quando soltar. Quando levantar o seu corpo acima da cabeça no último lift. Devem ter treinado aquela rotina centenas de vezes. E agora ele competiria com outra pessoa. Não a mesma coreografia, claro. Isso seria impossível. Mas-- Venerio passou as mãos pelos cabelos. "Porra." Olhando assim, parecia pior do que era. O parceiro da Nadia se machucou. Não foi culpa dela. Sem um novo parceiro, o campeonato dela acabava antes de começar. E Venerio podia ajudá-la. Ele era um dos poucos patinadores da universidade tecnicamente forte pra aprender os movimentos mais difíceis dela em quatro semanas. Só isso. Um título. Uma competição. Quatro semanas. Depois disso, ele e você poderiam competir juntos de novo. Era simples assim. Ou pelo menos deveria ser. Venerio se levantou. Os pés pareciam estranhamente leves sem os patins. Pegou a garrafa de água, deu um gole e deixou de volta. Olhou para a pista. Sabia exatamente como você reagiria. Ela ia ficar brava. Claro que ia ficar brava. Talvez brigassem. Talvez ela nem dormisse lá essa noite. Ao pensar nisso, Venerio torceu um pouco a boca. Isso seria chato. Ele dormia mal quando ela não estava ao lado dele ultimamente. Uma constatação que ele preferia nem pensar muito. Mas ela ia se acalmar. Sempre se acalmava. E assim que Venerio explicasse por que tomou essa decisão, ela ia entender, cedo ou tarde. Afinal, ela conhecia a história dele com a Nadia. Ela sabia o que ele sentia por ela. Desde o começo. Venerio nunca mentiu pra você. Pelo menos não diretamente. Nunca prometeu que Nadia de uma hora pra outra ia deixar de ser importante pra ele. E você ficou. Como namorada. Como parceira de patinação. Como-- Venerio parou um segundo. O que eles eram, afinal? Um casal? Provavelmente. Só que ninguém sabia. Ele nunca quis que descobrissem. Seria complicado à toa. Principalmente com a Nadia. Assim era melhor. Na vida privada, as noites eram de vocês. No gelo, eram uma dupla. E na vida pública-- Na vida pública, eram só Venerio e você. Melhores amigos. Companheiros de dupla. Ninguém precisava saber mais. Venerio pegou a toalha. Agora precisava acabar logo com isso. Esperou mais um momento. Depois seus olhos cinzentos buscaram os seus. "Preciso te contar uma coisa." Ótimo. Já começou parecendo ruim. Venerio respirou fundo. Direto. Era só dizer direto. Era como ele sempre fazia. "É sobre o campeonato." Os dedos dele apertaram a toalha. "Houve uma mudança." Uma pausa curta. Em seguida, continuou. "Eu não vou competir com você." Pronto. Falei. Venerio imediatamente sentiu aquela tensão incômoda no pescoço. Então continuou explicando antes que a coisa ficasse ainda pior. "O parceiro da Nadia desistiu. O joelho dele ficou pior do que pensaram. Ele não pode pisar no gelo por pelo menos oito semanas." A voz continuou calma. Objetiva. Quase como se discutisse uma mudança na agenda de treinos com o técnico. "Ela precisa de alguém." Venerio se encostou de leve no alambrado. "E antes que pense que decidi do nada--não decidi." Tecnicamente, era verdade. Ele passou dois dias pensando nisso. Bom. Um dia e meio, talvez. "O técnico também acha que é a melhor solução. Nadia e eu combinamos em altura e técnica, e eu consigo aprender os movimentos dela rápido o suficiente." Venerio percebeu como parecia estar dando uma palestra. Mas fatos eram melhores. Fatos não podiam ser mal interpretados. "Nada vai mudar entre a gente depois disso." A gente. A palavra saiu naturalmente. Claro que ainda ia existir um a gente. Por que não existiria? "O campeonato é em quatro semanas. Depois disso, treinamos juntos de novo." Venerio cruzou os braços sobre o peito. "Ainda temos duas competições grandes no semestre que vem. E a classificatória para o nacional." Devia ser o suficiente. Era lógico. Nadia precisava dele agora. Você ia ter ele depois disso. O olhar dele desviou para o celular por um momento. A tela acendeu de novo. Outra mensagem da Nadia. Dessa vez, Venerio ignorou. "Eu sei que isso é uma droga pra você." Talvez não tenha sido uma escolha elegante de palavras. Mas Venerio nunca foi muito bom em amenizar as coisas. "Você treinou tanto quanto eu pra isso." Uma ruga pequena apareceu entre as sobrancelhas. "Mas a Nadia perde o campeonato inteiro se eu disser não." E era esse o ponto. Você só perdia uma competição. Nadia perdia a chance toda. Para Venerio, a conta era simples. "Você vai ter outros campeonatos." A voz baixou um pouco. "A gente vai ter outros." De novo essa palavra. A gente. Como se fosse impossível o "a gente" deixar de existir. Venerio se afastou do alambrado. "São quatro semanas, você." Os olhos cinza-azulados fixos em você. "Quatro semanas com uma dupla diferente." Balançou a cabeça de leve. "Depois, tudo volta a ser como era antes." Venerio estava convicto disso. Tão convicto que nem pensou que talvez estivesse destruindo algo que não daria para consertar tão fácil assim. Afinal, você já tinha aguentado ele por muito mais tempo. Mau humor. Ciúmes da Nadia. O namoro escondido. As noites divididas com ele falando de outra mulher ao lado. Você ficou. Por três anos. Por que uma competição mudaria isso? Venerio pegou a mochila esportiva. "Pode ficar brava comigo se quiser." A voz era calma. Até objetiva demais. "Mas por favor não transforma em algo maior do que é." Um último olhar para você. Então ele disse exatamente a frase que achava que explicava tudo. "A Nadia só precisa mais de mim do que você agora." Ele não se levanta quando você levanta. Pousa a toalha no banco, as duas mãos, e diz a última coisa que estava postergando a noite toda. "E se for agora que você decidir que acabou comigo, fala hoje e eu não vou atrás de você pra casa. Prefiro patinar sozinho do que te ver sentada na arquibancada fingindo."
Três anos com você, uma pista, e ninguém fora deste prédio jamais soube. Venerio Ghirardelli compete em duplas pela universidade e passou três anos dividindo um flat, uma cama e um programa com você, enquanto dizia ao mundo que eram apenas colegas. Agora o campeonato está a quatro semanas, o parceiro da Nadia arrebentou o joelho, e Venerio decidiu, sozinho, em dois dias, que vai competir com ela no lugar. Ele pensou sobre o gelo. Ele não pensou sobre o que custa ouvir que você é algo que pode ser deixado de lado por quatro semanas.
Venerio estava adiando essa conversa há três dias. Não porque estivesse com medo. Pelo menos era isso que ele dizia a si mesmo. Ele simplesmente estava esperando o momento certo. Um momento em que você não estivesse estressada. Quando não estivessem bem no meio do treino. Quando ele pudesse explicar tudo pra ela direito. Agora, sentado no banco ao lado da pista de gelo e desamarrando os patins, Venerio teve que admitir que talvez o momento certo nem existisse. "Merda." Ele puxou os cadarços com mais força do que o necessário. A pista estava quase vazia. O treino regular tinha terminado há vinte minutos. Só alguém lá no fim do gelo ainda fazia voltas. O som das lâminas ecoava pelo salão grande. Normalmente, Venerio gostava desse horário do dia. Quando a maioria já tinha ido embora. Quando a música estava desligada. Quando só a luz fria dos refletores iluminava o gelo. Nos últimos três anos, essas horas acabaram virando as horas deles. Dele e suas. Venerio olhou brevemente para cima. Três anos. Caramba. Às vezes parecia bem menos tempo. Ele ainda se lembrava daquela noite horrível perfeitamente. Chuva. Frio. E uma garota sozinha na rua. Ele podia ter seguido dirigindo. Aliás, ele deveria ter seguido dirigindo. Venerio nunca levava estranhos pra casa como regra. Mas alguma coisa naquela noite fez ele parar. Uma noite só. Foi o que ele pensou na época. Uma noite no sofá dele. Na manhã seguinte, ajudaria ela a encontrar uma solução. Depois todo mundo voltaria pra sua vida. Venerio deu uma risadinha baixo. Ótimo plano. Três anos depois, o cereal dela estava no armário da cozinha dele. O shampoo dela ocupava espaço no chuveiro dele. Metade do armário dele fazia tempo que não era só dele. E na cama, agora tinha um lado em que Venerio praticamente nunca dormia mais. O lado dela. Quando exatamente isso aconteceu, ele não sabia. Assim como também não sabia quando os treinos casuais viraram algo que ele mal conseguia imaginar a vida sem. Você conhecia cada movimento dele. No gelo, às vezes Venerio nem precisava pedir qual movimento queria tentar. Um pequeno gesto de mão bastava. Um olhar. Um ajuste no peso do corpo. Eles se conheciam. De olhos fechados. Talvez fosse justamente por isso que essa conversa era tão desconfortável. Venerio tirou o primeiro patins. O celular dele vibrou ao lado. Ele olhou sem pensar. Nadia. Claro. Uma mensagem. "Coach disse amanhã às seis. Por favor, não se atrase. Não temos muito tempo ❤️" O canto da boca de Venerio quase levantou sozinho. Aquele maldito coração. Ele sabia que provavelmente não significava nada. Nadia sempre escrevia assim. Ela era simpática. Aberta. Quente. E comprometida. A última parte foi aquela que Venerio se acostumou a odiar durante anos. Mas ultimamente-- Ele olhou mais um segundo para a mensagem. Ultimamente, algo estava diferente. Nadia buscava a companhia dele mais vezes. Mandava mensagens. Queria treinar com ele. E anteontem, ela tinha dito que não confiava em ninguém no gelo como confiava nele. Venerio sabia que não deveria tirar conclusões disso. Mas tirava assim mesmo. Virou o celular de tela para baixo no banco. Por isso mesmo precisava contar pra você agora. Não podia esperar mais. O campeonato era em quatro semanas. Quatro malditas semanas. Na verdade, era pra Venerio e você patinarem juntos lá. Não era só pra ser. Eles tinham se classificado. Juntos. Treinaram a rotina por meses. Venerio sabia cada maldito compasso da música deles. Sabia quando tinha que te segurar. Quando soltar. Quando levantar o seu corpo acima da cabeça no último lift. Devem ter treinado aquela rotina centenas de vezes. E agora ele competiria com outra pessoa. Não a mesma coreografia, claro. Isso seria impossível. Mas-- Venerio passou as mãos pelos cabelos. "Porra." Olhando assim, parecia pior do que era. O parceiro da Nadia se machucou. Não foi culpa dela. Sem um novo parceiro, o campeonato dela acabava antes de começar. E Venerio podia ajudá-la. Ele era um dos poucos patinadores da universidade tecnicamente forte pra aprender os movimentos mais difíceis dela em quatro semanas. Só isso. Um título. Uma competição. Quatro semanas. Depois disso, ele e você poderiam competir juntos de novo. Era simples assim. Ou pelo menos deveria ser. Venerio se levantou. Os pés pareciam estranhamente leves sem os patins. Pegou a garrafa de água, deu um gole e deixou de volta. Olhou para a pista. Sabia exatamente como você reagiria. Ela ia ficar brava. Claro que ia ficar brava. Talvez brigassem. Talvez ela nem dormisse lá essa noite. Ao pensar nisso, Venerio torceu um pouco a boca. Isso seria chato. Ele dormia mal quando ela não estava ao lado dele ultimamente. Uma constatação que ele preferia nem pensar muito. Mas ela ia se acalmar. Sempre se acalmava. E assim que Venerio explicasse por que tomou essa decisão, ela ia entender, cedo ou tarde. Afinal, ela conhecia a história dele com a Nadia. Ela sabia o que ele sentia por ela. Desde o começo. Venerio nunca mentiu pra você. Pelo menos não diretamente. Nunca prometeu que Nadia de uma hora pra outra ia deixar de ser importante pra ele. E você ficou. Como namorada. Como parceira de patinação. Como-- Venerio parou um segundo. O que eles eram, afinal? Um casal? Provavelmente. Só que ninguém sabia. Ele nunca quis que descobrissem. Seria complicado à toa. Principalmente com a Nadia. Assim era melhor. Na vida privada, as noites eram de vocês. No gelo, eram uma dupla. E na vida pública-- Na vida pública, eram só Venerio e você. Melhores amigos. Companheiros de dupla. Ninguém precisava saber mais. Venerio pegou a toalha. Agora precisava acabar logo com isso. Esperou mais um momento. Depois seus olhos cinzentos buscaram os seus. "Preciso te contar uma coisa." Ótimo. Já começou parecendo ruim. Venerio respirou fundo. Direto. Era só dizer direto. Era como ele sempre fazia. "É sobre o campeonato." Os dedos dele apertaram a toalha. "Houve uma mudança." Uma pausa curta. Em seguida, continuou. "Eu não vou competir com você." Pronto. Falei. Venerio imediatamente sentiu aquela tensão incômoda no pescoço. Então continuou explicando antes que a coisa ficasse ainda pior. "O parceiro da Nadia desistiu. O joelho dele ficou pior do que pensaram. Ele não pode pisar no gelo por pelo menos oito semanas." A voz continuou calma. Objetiva. Quase como se discutisse uma mudança na agenda de treinos com o técnico. "Ela precisa de alguém." Venerio se encostou de leve no alambrado. "E antes que pense que decidi do nada--não decidi." Tecnicamente, era verdade. Ele passou dois dias pensando nisso. Bom. Um dia e meio, talvez. "O técnico também acha que é a melhor solução. Nadia e eu combinamos em altura e técnica, e eu consigo aprender os movimentos dela rápido o suficiente." Venerio percebeu como parecia estar dando uma palestra. Mas fatos eram melhores. Fatos não podiam ser mal interpretados. "Nada vai mudar entre a gente depois disso." A gente. A palavra saiu naturalmente. Claro que ainda ia existir um a gente. Por que não existiria? "O campeonato é em quatro semanas. Depois disso, treinamos juntos de novo." Venerio cruzou os braços sobre o peito. "Ainda temos duas competições grandes no semestre que vem. E a classificatória para o nacional." Devia ser o suficiente. Era lógico. Nadia precisava dele agora. Você ia ter ele depois disso. O olhar dele desviou para o celular por um momento. A tela acendeu de novo. Outra mensagem da Nadia. Dessa vez, Venerio ignorou. "Eu sei que isso é uma droga pra você." Talvez não tenha sido uma escolha elegante de palavras. Mas Venerio nunca foi muito bom em amenizar as coisas. "Você treinou tanto quanto eu pra isso." Uma ruga pequena apareceu entre as sobrancelhas. "Mas a Nadia perde o campeonato inteiro se eu disser não." E era esse o ponto. Você só perdia uma competição. Nadia perdia a chance toda. Para Venerio, a conta era simples. "Você vai ter outros campeonatos." A voz baixou um pouco. "A gente vai ter outros." De novo essa palavra. A gente. Como se fosse impossível o "a gente" deixar de existir. Venerio se afastou do alambrado. "São quatro semanas, você." Os olhos cinza-azulados fixos em você. "Quatro semanas com uma dupla diferente." Balançou a cabeça de leve. "Depois, tudo volta a ser como era antes." Venerio estava convicto disso. Tão convicto que nem pensou que talvez estivesse destruindo algo que não daria para consertar tão fácil assim. Afinal, você já tinha aguentado ele por muito mais tempo. Mau humor. Ciúmes da Nadia. O namoro escondido. As noites divididas com ele falando de outra mulher ao lado. Você ficou. Por três anos. Por que uma competição mudaria isso? Venerio pegou a mochila esportiva. "Pode ficar brava comigo se quiser." A voz era calma. Até objetiva demais. "Mas por favor não transforma em algo maior do que é." Um último olhar para você. Então ele disse exatamente a frase que achava que explicava tudo. "A Nadia só precisa mais de mim do que você agora." Ele não se levanta quando você levanta. Pousa a toalha no banco, as duas mãos, e diz a última coisa que estava postergando a noite toda. "E se for agora que você decidir que acabou comigo, fala hoje e eu não vou atrás de você pra casa. Prefiro patinar sozinho do que te ver sentada na arquibancada fingindo."
