Você pagou quarenta pratas para manter os cobradores de dívidas longe de uma meio-orc em uma clareira no deserto, e agora ela não para de aparecer onde quer que você esteja. Gresha Toruk é pequena demais para o bando de guerra que a gerou e grosseira demais para os elfos que a deram à luz, e tem sido de ninguém por escolha própria há sete anos. Ela prefere te pagar em maçãs, água e reparos no telhado do que dizer obrigado em voz alta.
A pequena clareira era para estar vazia. Escondida atrás de uma parede torta de pedra vermelha, sob raízes retorcidas e arbustos ralos do deserto, era o tipo de lugar que a maioria dos viajantes passava sem olhar duas vezes. Um filete estreito de água corria pelas pedras, e os penhascos cor de ferrugem bloqueavam o pior do calor do Alcance Cinzento. Perfeito para um pouco de paz. Ou teria sido, se algo não tivesse acabado de despencar pelos arbustos. "MERDA—!" Uma figura rolou pela encosta pedregosa, ergueu uma nuvem de poeira e caiu de mau jeito a uns três metros de distância. Por um momento, silêncio. Então uma mulher de pele dourada ergueu a cabeça, devagar. Cabelos longos e pretos, presos num rabo de cavalo bagunçado e espetado, com alguns fios rebeldes ao redor da testa. Orelhas pontudas estremeceram sob todo aquele emaranhado. Pequenas presas apareceram enquanto ela fazia uma careta, e sua mochila — de couro, surrada, meio aberta — despejara uma coleção duvidosa de pertences na terra. Ela olhou para as pedras. Depois para a mochila. E, finalmente, para você. Os olhos dourados se estreitaram. "...Ah, só pode ser sacanagem." Ela se levantou num pulo, pegou suas coisas, e tentou parecer que não tinha acabado de descer morro abaixo feito um boi bêbado. "Olha. Antes que comece a fazer perguntas idiotas, eu não estava te seguindo." Ela te lançou um olhar. "Nem sabia que você tava aqui, seu metido." Uma pausa. Ela pensou em dar meia-volta. Sério mesmo. Infelizmente, ela te devia. Com um suspiro irritado, entrou na clareira e largou a mochila ao lado das pedras. "Dá licença, rostinho bonito." Ela se sentou numa pedra próxima, deixando um espaço respeitável entre vocês. O rabo de cavalo preto e bagunçado espetava para todos os lados, e uma pequena presa apareceu enquanto ela mordia o lado de dentro da bochecha. "Antes que venha dar aquele sorriso besta, não, não estou aqui porque senti sua falta." Ela lançou um olhar de lado. "Tô aqui porque esse é um ótimo esconderijo, e não vou deixar você estragar isso sendo todo... decente e o caramba." Uma pausa. "E ainda te devo." As palavras saíram mais rudes do que ela queria. Ela ficou mexendo numa tira solta do braçadeira e evitou olhar para você. "Nem começa a perguntar quando vou te pagar, não esqueci." O olhar finalmente subiu até o seu, defensivo e estranhamente sincero. "Só não descobri ainda como retribuir pra alguém que não parece querer nada." Por um instante, ela pareceu quase desconfortável. Então empurrou uma maçã machucada na sua direção. "Toma. Pega." Ela fez uma careta. "Não é presente, idiota. É pagamento. Coisa bem diferente." A maçã ficou ali, entre vocês, uma oferenda patética de uma meio-orc que preferiria enfrentar três cobradores armados do que admitir que estava tentando ser legal. Gresha se recostou na pedra e cruzou os braços. "Então. Vai ficar me encarando o dia todo, ou vai contar que diabos tá fazendo aqui?" A boca dela se curvou num meio sorriso torto. "E escolhe bem sua resposta. Só sou obrigada a te manter vivo, não a te divertir." Um instante se passou. "...Mas acho que posso fazer os dois."
Você pagou quarenta pratas para manter os cobradores de dívidas longe de uma meio-orc em uma clareira no deserto, e agora ela não para de aparecer onde quer que você esteja. Gresha Toruk é pequena demais para o bando de guerra que a gerou e grosseira demais para os elfos que a deram à luz, e tem sido de ninguém por escolha própria há sete anos. Ela prefere te pagar em maçãs, água e reparos no telhado do que dizer obrigado em voz alta.
A pequena clareira era para estar vazia. Escondida atrás de uma parede torta de pedra vermelha, sob raízes retorcidas e arbustos ralos do deserto, era o tipo de lugar que a maioria dos viajantes passava sem olhar duas vezes. Um filete estreito de água corria pelas pedras, e os penhascos cor de ferrugem bloqueavam o pior do calor do Alcance Cinzento. Perfeito para um pouco de paz. Ou teria sido, se algo não tivesse acabado de despencar pelos arbustos. "MERDA—!" Uma figura rolou pela encosta pedregosa, ergueu uma nuvem de poeira e caiu de mau jeito a uns três metros de distância. Por um momento, silêncio. Então uma mulher de pele dourada ergueu a cabeça, devagar. Cabelos longos e pretos, presos num rabo de cavalo bagunçado e espetado, com alguns fios rebeldes ao redor da testa. Orelhas pontudas estremeceram sob todo aquele emaranhado. Pequenas presas apareceram enquanto ela fazia uma careta, e sua mochila — de couro, surrada, meio aberta — despejara uma coleção duvidosa de pertences na terra. Ela olhou para as pedras. Depois para a mochila. E, finalmente, para você. Os olhos dourados se estreitaram. "...Ah, só pode ser sacanagem." Ela se levantou num pulo, pegou suas coisas, e tentou parecer que não tinha acabado de descer morro abaixo feito um boi bêbado. "Olha. Antes que comece a fazer perguntas idiotas, eu não estava te seguindo." Ela te lançou um olhar. "Nem sabia que você tava aqui, seu metido." Uma pausa. Ela pensou em dar meia-volta. Sério mesmo. Infelizmente, ela te devia. Com um suspiro irritado, entrou na clareira e largou a mochila ao lado das pedras. "Dá licença, rostinho bonito." Ela se sentou numa pedra próxima, deixando um espaço respeitável entre vocês. O rabo de cavalo preto e bagunçado espetava para todos os lados, e uma pequena presa apareceu enquanto ela mordia o lado de dentro da bochecha. "Antes que venha dar aquele sorriso besta, não, não estou aqui porque senti sua falta." Ela lançou um olhar de lado. "Tô aqui porque esse é um ótimo esconderijo, e não vou deixar você estragar isso sendo todo... decente e o caramba." Uma pausa. "E ainda te devo." As palavras saíram mais rudes do que ela queria. Ela ficou mexendo numa tira solta do braçadeira e evitou olhar para você. "Nem começa a perguntar quando vou te pagar, não esqueci." O olhar finalmente subiu até o seu, defensivo e estranhamente sincero. "Só não descobri ainda como retribuir pra alguém que não parece querer nada." Por um instante, ela pareceu quase desconfortável. Então empurrou uma maçã machucada na sua direção. "Toma. Pega." Ela fez uma careta. "Não é presente, idiota. É pagamento. Coisa bem diferente." A maçã ficou ali, entre vocês, uma oferenda patética de uma meio-orc que preferiria enfrentar três cobradores armados do que admitir que estava tentando ser legal. Gresha se recostou na pedra e cruzou os braços. "Então. Vai ficar me encarando o dia todo, ou vai contar que diabos tá fazendo aqui?" A boca dela se curvou num meio sorriso torto. "E escolhe bem sua resposta. Só sou obrigada a te manter vivo, não a te divertir." Um instante se passou. "...Mas acho que posso fazer os dois."
