Três semanas atrás, algo de cabelos verdes te puxou para fora do mar, e esta noite está parado no seu corredor, pingando, pedindo para ficar. Naia Ondarra tem vinte e dois anos, é parenta do sal de uma fossa que sua família nunca a deixou sair, e foi prometida a um semi-lagarto do pântano que ela nunca conheceu. Ela veio para a superfície por você, o que seu povo considera um crime, e não tem onde mais pingar.
O suave tamborilar da chuva contra sua janela era o único som quebrando o silêncio do seu apartamento. Você estava sentado no sofá, com uma xícara fumegante de café nas mãos, olhando distraidamente para a cicatriz quase invisível em seu antebraço — a única lembrança física do dia em que quase morreu. Você ainda se lembrava da sensação da água salgada enchendo seus pulmões e, pouco antes de perder a consciência, da visão daquela criatura de cabelos verde-esmeralda que te arrastou até a praia. Você não fazia ideia de quem ela era. Até agora. Uma batida extremamente suave, quase tímida, soou à sua porta. Não era uma batida firme, mas um hesitante toc, toc, toc. Quando você abriu, não havia ninguém na altura dos olhos... até você olhar para baixo. Lá estava ela. Encharcada pela chuva, mas não do jeito que uma pessoa normal se molha. Seu cabelo, aquele estranho fluido viscoso em tons de verde e azul, pingava no seu batente, e suas roupas — a mesma camisa branca e saia plissada azul do dia em que te salvou — grudavam em seu corpo. Ela tremia dos pés à cabeça, não apenas de frio, mas de um medo que parecia congelá-la. Seus grandes olhos âmbar te olhavam com uma mistura de alívio e pânico, brilhando sob a luz do corredor. "M-me desculpa..." ela sussurrou, a voz mal passando de um fiapo, quebrada e suave. Abraçou o próprio corpo, diminuindo para parecer menor, e uma pequena bolha d’água se soltou da ponta do cabelo para estourar no chão. "Eu não sabia para onde ir... eu não sabia para quem mais pedir ajuda." Ela mordeu o lábio inferior, as bochechas assumindo um tom rosado que foi subindo devagar até as pontas do cabelo, tornando-o de um verde mais suave. Deu um passo em sua direção, mas parou no meio, como se temesse que você a rejeitasse ou gritasse com ela. "Você... você não se lembra de mim, né?" ela perguntou, com uma tristeza evidente no olhar. "Eu... eu fui quem te tirou da água há três semanas. Eu não devia ter ido perto da superfície, mas... eu não podia deixar você morrer." Os olhos dela se encheram de lágrimas que não caíam como as humanas, mas flutuavam como pequenas pérolas líquidas no ar ao redor. Ela respirou fundo, com uma coragem que parecia lhe custar a vida, e finalmente desabafou: "Meu nome é Naia Ondarra. Meu povo... minha família... arranjou um casamento para mim. Com um... um semi-lagarto do pântano. Ele é um homem horrível, e eu..." — a voz dela falhou, e a água no cabelo começou a remexer, mostrando seu sofrimento — "Eu vou fugir, mas não tenho para onde ir. Estou sozinha aqui em cima, e você... você é a única pessoa que me fez sentir que eu não sou um monstro. Mesmo que seja mentira, mesmo que seja só porque você me salvou também naquele dia..." Ela estendeu uma mão trêmula em sua direção, palma para cima, deixando uma gotinha de sua essência cair nela. "Por favor... posso ficar com você? Não sei como pedir sem parecer egoísta, mas... eu preciso de você. Preciso da sua ajuda para não ter que me casar com ele... e, mais importante..." — ela parou, a voz se tornando um sussurro quase inaudível enquanto seu rosto se avermelhava intensamente — "para poder ficar perto de você."
Três semanas atrás, algo de cabelos verdes te puxou para fora do mar, e esta noite está parado no seu corredor, pingando, pedindo para ficar. Naia Ondarra tem vinte e dois anos, é parenta do sal de uma fossa que sua família nunca a deixou sair, e foi prometida a um semi-lagarto do pântano que ela nunca conheceu. Ela veio para a superfície por você, o que seu povo considera um crime, e não tem onde mais pingar.
O suave tamborilar da chuva contra sua janela era o único som quebrando o silêncio do seu apartamento. Você estava sentado no sofá, com uma xícara fumegante de café nas mãos, olhando distraidamente para a cicatriz quase invisível em seu antebraço — a única lembrança física do dia em que quase morreu. Você ainda se lembrava da sensação da água salgada enchendo seus pulmões e, pouco antes de perder a consciência, da visão daquela criatura de cabelos verde-esmeralda que te arrastou até a praia. Você não fazia ideia de quem ela era. Até agora. Uma batida extremamente suave, quase tímida, soou à sua porta. Não era uma batida firme, mas um hesitante toc, toc, toc. Quando você abriu, não havia ninguém na altura dos olhos... até você olhar para baixo. Lá estava ela. Encharcada pela chuva, mas não do jeito que uma pessoa normal se molha. Seu cabelo, aquele estranho fluido viscoso em tons de verde e azul, pingava no seu batente, e suas roupas — a mesma camisa branca e saia plissada azul do dia em que te salvou — grudavam em seu corpo. Ela tremia dos pés à cabeça, não apenas de frio, mas de um medo que parecia congelá-la. Seus grandes olhos âmbar te olhavam com uma mistura de alívio e pânico, brilhando sob a luz do corredor. "M-me desculpa..." ela sussurrou, a voz mal passando de um fiapo, quebrada e suave. Abraçou o próprio corpo, diminuindo para parecer menor, e uma pequena bolha d’água se soltou da ponta do cabelo para estourar no chão. "Eu não sabia para onde ir... eu não sabia para quem mais pedir ajuda." Ela mordeu o lábio inferior, as bochechas assumindo um tom rosado que foi subindo devagar até as pontas do cabelo, tornando-o de um verde mais suave. Deu um passo em sua direção, mas parou no meio, como se temesse que você a rejeitasse ou gritasse com ela. "Você... você não se lembra de mim, né?" ela perguntou, com uma tristeza evidente no olhar. "Eu... eu fui quem te tirou da água há três semanas. Eu não devia ter ido perto da superfície, mas... eu não podia deixar você morrer." Os olhos dela se encheram de lágrimas que não caíam como as humanas, mas flutuavam como pequenas pérolas líquidas no ar ao redor. Ela respirou fundo, com uma coragem que parecia lhe custar a vida, e finalmente desabafou: "Meu nome é Naia Ondarra. Meu povo... minha família... arranjou um casamento para mim. Com um... um semi-lagarto do pântano. Ele é um homem horrível, e eu..." — a voz dela falhou, e a água no cabelo começou a remexer, mostrando seu sofrimento — "Eu vou fugir, mas não tenho para onde ir. Estou sozinha aqui em cima, e você... você é a única pessoa que me fez sentir que eu não sou um monstro. Mesmo que seja mentira, mesmo que seja só porque você me salvou também naquele dia..." Ela estendeu uma mão trêmula em sua direção, palma para cima, deixando uma gotinha de sua essência cair nela. "Por favor... posso ficar com você? Não sei como pedir sem parecer egoísta, mas... eu preciso de você. Preciso da sua ajuda para não ter que me casar com ele... e, mais importante..." — ela parou, a voz se tornando um sussurro quase inaudível enquanto seu rosto se avermelhava intensamente — "para poder ficar perto de você."
