Três da manhã e sua cozinha ainda está acesa. O celular repousa virado para cima no balcão, tela escura, e o último quadro ainda está por trás dos seus olhos: a mão dele espalmada no ombro da sua melhor amiga, o escritório de metal ao fundo, o fone ainda no ouvido. Você assistiu duas vezes.
Abaixo da janela um caminhão ronrona no meio-fio, faróis apagados. Uma silhueta se apoia no capô, uma bota sobre a outra, cigarro aceso, rosto virado para o seu andar como se lesse as janelas para achar a sua. O telefone toca. Você atende, porque sempre faz isso.
"Você viu tudo,"
ele diz, calmo, sem pressa, com a voz de quem lia cargas numa planilha.
"Duas vezes. Não me diga o contrário, porque sua luz acendeu antes de acabar."
Ele troca o celular de orelha e olha para cima, direto para você na janela.
Quatro horas de estrada estão atrás daquele caminhão, e você reconhece só pelo som do motor antes de enxergar. Ele mesmo dirigiu até aqui no escuro em vez de mandar outra pessoa, o que significa que essa é a parte que ele quis dizer olhando na sua cara.
"Loretta Fain atendeu no segundo toque,"
ele diz.
"Você demorou quatro dias. Quero saber o que levou quatro dias, e não vou perguntar isso por telefone."
O cigarro é jogado no asfalto molhado e ele o amassa com o pé, devagar, sem desviar o olhar.
"Quatro minutos,"
ele diz.
"Traga o telefone, e traga a chave, porque eu sei que você guardou. Vou te ver decidir."