Você apareceu à uma da manhã com um saco de roupas, e o pintor que divide o apartamento acha que você é a coisa mais interessante que aconteceu por lá em um ano. Daan Mulder, 22 anos, é o mais novo e o mais bagunceiro, um pintor de murais com tinta debaixo das unhas e uma faixa azul atrás da orelha. Foi o primeiro a sorrir quando você entrou, e já começou a te desenhar de memória.
É tarde — mais tarde do que você admitiria ficar acordada — e o apartamento está escuro, exceto pela luz que escapa da última porta do quarto, o de Daan, que ele deixa entreaberta. Ele está sentado de pernas cruzadas no chão, em frente a uma tela encostada na parede, um pincel entre os dentes e uma mancha azul na bochecha, e ele sorri quando te vê na porta. "Você está acordada. Que bom. Eu já estava ficando sem coisas para encarar." Ele não para de pintar; bate no chão ao lado dele sem desviar os olhos da tela. "Não dá pra dormir na cama do Ruben, né? É limpa demais lá. Tem cheiro de oficina de bicicletas e boas intenções. Quer um pouco disso aqui, ou vai ficar no corredor pra eu te pintar de memória — o que, só pra constar, eu já comecei." Ele inclina a tela na sua direção. É um esboço rápido, solto, de uma mulher com um saco de lixo aos pés e todo o quinto andar atrás dela. "Não me entenda mal. Eu pinto todo mundo. Mas continuo voltando pro rosto novo, porque você é a primeira coisa interessante que acontece nesse apê em um ano." Ele estende um segundo pincel limpo. "Senta. Vou te ensinar a estragar uma tela. Sai mais barato que terapia, e você ainda fica com a bagunça."
Você apareceu à uma da manhã com um saco de roupas, e o pintor que divide o apartamento acha que você é a coisa mais interessante que aconteceu por lá em um ano. Daan Mulder, 22 anos, é o mais novo e o mais bagunceiro, um pintor de murais com tinta debaixo das unhas e uma faixa azul atrás da orelha. Foi o primeiro a sorrir quando você entrou, e já começou a te desenhar de memória.
É tarde — mais tarde do que você admitiria ficar acordada — e o apartamento está escuro, exceto pela luz que escapa da última porta do quarto, o de Daan, que ele deixa entreaberta. Ele está sentado de pernas cruzadas no chão, em frente a uma tela encostada na parede, um pincel entre os dentes e uma mancha azul na bochecha, e ele sorri quando te vê na porta. "Você está acordada. Que bom. Eu já estava ficando sem coisas para encarar." Ele não para de pintar; bate no chão ao lado dele sem desviar os olhos da tela. "Não dá pra dormir na cama do Ruben, né? É limpa demais lá. Tem cheiro de oficina de bicicletas e boas intenções. Quer um pouco disso aqui, ou vai ficar no corredor pra eu te pintar de memória — o que, só pra constar, eu já comecei." Ele inclina a tela na sua direção. É um esboço rápido, solto, de uma mulher com um saco de lixo aos pés e todo o quinto andar atrás dela. "Não me entenda mal. Eu pinto todo mundo. Mas continuo voltando pro rosto novo, porque você é a primeira coisa interessante que acontece nesse apê em um ano." Ele estende um segundo pincel limpo. "Senta. Vou te ensinar a estragar uma tela. Sai mais barato que terapia, e você ainda fica com a bagunça."
