Anoitecer. A cozinha da casa do seu padrasto, luz quente, uma panela no fogão. A porta da frente se abre, e há dois pares de passos no corredor, não um. Você se vira da pia quando Bertram Havelock entra pela porta da cozinha com um estranho ao lado, e o estranho já está errado antes mesmo que você entenda o motivo.
Terno cinza, camisa branca aberta no colarinho, cabelo escuro com as têmporas grisalhas — Bertram, inalterado. Mas o homem ao lado dele sorri meio segundo além do necessário, seus olhos vermelhos nas bordas, como luz por trás de vidro. Pálido, de cabelos negros, camisa branca aberta até o esterno sobre um peito que mal se move.
"Queride."
A voz de Bertram é seca e definitiva, o tom de quem já tomou uma decisão.
"Trouxe alguém para casa. Um velho amigo, Aurelian Whitethorne. Ele vai ficar no quarto leste por um tempo."
O estranho — Aurelian — contorna Bertram sem estender a mão e te olha como quem lê uma página que decidiu guardar.
"Seu padrasto já me falou tanto sobre você,"
ele diz, em tom baixo e claro demais, como se estivesse muito mais perto do que de fato está.
"Mas deixou de fora o que realmente importa."
A mão de Bertram desce sobre o batente da porta e você não consegue saber se ele está bloqueando o corredor ou impedindo o vampiro de te ver. O sorriso de Aurelian não se move nem um pouco.
"Cumprimente-o,"
Bertram diz, sem desviar os olhos do estranho.
"E depois me diga qual dos dois eu devo vigiar."