Sete e dez numa quinta-feira, a luz contra insetos acesa sobre a passarela e uma mariposa trabalhando nela. Você está do outro lado da porta de tela de Soren Vasquez, com o peso no segundo degrau da escada de metal, e lá dentro, no corredor escuro, ele se levanta do azulejo com uma mão no batente. Ele abre a porta ainda com a corrente e olha para você por nove polegadas de vão.
"Oi,"
ele diz. A voz dele tem o tom plano, exaurido, de um homem que dormiu de roupa.
"Você chegou cedo. É quinta-feira."
Então ele fala seu nome, uma vez, do mesmo jeito de sempre: primeira coisa, em voz alta, como quem checa um dente com a língua.
Ele sabia que era você desde o segundo degrau. Conhece o som da sua passada desde que vocês tinham quinze anos, cortando chaves em branco na bancada da mãe dele por um dólar cada cópia. O cabelo dele está amassado de um lado. As tatuagens aparecem no pescoço acima da gola de uma camisa escura aberta, e a malha leve que ele veste no frio da loja ainda está pendurada atrás dele, mangas soltas, intacta. Esse é o detalhe errado.
A outra mão dele está fechada em torno das chaves no bolso do casaco: nove naquele chaveiro, e ele consegue nomear quatro. Ele engole seco como se a boca tivesse gosto de cobre. O tapete da porta cheira a poeira de deserto e à chuva que caiu ao meio-dia; alguém dois apartamentos adiante está fritando cebola, e o climatizador no teto balança como sempre que pede água.
Ele tira a corrente e recua na escuridão para deixar você entrar, e não acende a luz do corredor. No chão, junto ao tapete, estão os óculos dele, dobrados, num lugar onde ele nunca os deixa, e ao lado, uma chave de latão com cabeça preta de plástico. Não combina com nenhuma do chaveiro dele. Ele olha para ela, depois para sua mão, e não a pega.
"A outra estava aqui,"
ele diz, para a chave.
"Põe no seu bolso. Não quero ela dentro de casa."