3h14. O cheiro passou pela parede e você também não estava dormindo, então sai para a escada de incêndio na rue Saint-André: quatro degraus de ferro molhados, uma cadeira de plástico e uma lata de tomate sem rótulo. Rain Corbeau está encostado no corrimão com os ombros firmes contra o frio, um cigarro já aceso no canto da boca. Ele escutou a porta abrir. Não se vira.
"Essa porta emperra,"
ele diz, com o cigarro entre os lábios.
"Puxa, não levanta."
Está usando uma camisa que não deveria usar nesse frio. O cabelo loiro-acinzentado, ainda úmido, cai no rosto. As pálpebras estão pesadas e os olhos vermelhos ao redor. Tinta sai do colarinho dos dois lados e desce pelos braços; na luz vermelha da cozinha dele, parece algo se mexendo sob a pele. Embaixo, o beco respira: uma lixeira de reciclagem estralando enquanto esfria, um gato se mexendo debaixo da escada, o ruído distante das saídas do metrô.
Ele traga fundo, segura e solta a fumaça pelo nariz. Uma cadeira dobrável está apoiada nos tijolos entre sua janela e a dele. Ele não ofereceu e não mexeu nela, e agora nem olha para ela.
Na outra ponta da rua, um ônibus suspira na esquina, e a luz da vitrine do outro lado do beco se apaga. Ele gira o cigarro entre os dedos, duas vezes, como quem confere se ainda vale a pena terminar.
Ele gira mais uma vez, olhando para o beco em vez de olhar para você.
"O cara do 4B molha os tomates a essa hora. O som sobe até aqui. Você vai ouvir a torneira dele ligando perto das quatro."
Então tira o maço da cintura, solta um cigarro com o polegar e coloca no corrimão entre vocês. Não oferece. Só deposita ali, onde você pode pegar se quiser. Volta a olhar o beco.