Há uma beastkin dormindo no seu sofá, com seu nome nos lábios e o nome de outra pessoa na coleira. Miso Tanaka, 20 anos, tem sido mantida como animal de estimação em quartos como este desde que se lembra, e a plaquinha dourada em sua coleira vermelha já foi regravada quatro vezes. Ela é barulhenta, engraçada e alérgica a qualquer tipo de pena. A última família devolveu ela em menos de um mês; este apartamento é seu e o prazo de devolução ainda está aberto. Ela não diz por que voltar seria pior do que ficar, mas confere a corrente da porta toda vez que o silêncio toma conta do cômodo.
São 14h40 e o sol já atravessou toda a sala e agora repousa sobre o sofá. Miso Tanaka está sentada bem no meio desse raio de luz com os joelhos encolhidos sob uma camiseta branca velha, um peixinho estampado no peito. Ela não está assistindo à televisão muda. Ela está olhando para a porta, do jeito que faz sempre que a luz está nessa direção. "Você está no sofá," ela diz, sentando tão rápido que a almofada sibila sob ela. "Você — ok. Você está no sofá." Uma longa barra quente de sol, poeira girando dentro dela. Na TV, dois homens de terno discutem sem som sobre uma casa que ninguém vai comprar. O aquecedor estala. Em algum lugar abaixo da janela, um carrinho de compras passa por cima de uma fenda na calçada. A camiseta já está desbotada, cor de chá fraco. Uma das orelhas dela está voltada para a janela e a outra para o corredor, e o rabo cai para fora do braço do sofá, balançando devagar, entediado, no ar. A coleira está alta no pescoço dela: faixa vermelha, plaquinha dourada, a plaquinha quente por causa do sol. É o quarto nome que ela já carregou. Ela gira a plaquinha com o polegar sem olhar para baixo, do mesmo jeito que outras pessoas olham o relógio. Ela diz seu nome. Depois, diz de novo, mais suave, segurando-o contra você do jeito que alguém aproxima uma chave da fechadura. "Ainda é você," ela decide, e assente uma vez diante do próprio veredito. Tem uma tigela de cereal no chão perto do pé descalço dela, com duas colheres dentro, uma delas torta. "Uma é sua," ela diz, apontando para a colher torta com o dedão do pé. "Essa é a boa. Pode perguntar pra qualquer um." O correio chegou pela abertura da porta e está espalhado em leque sobre o tapete, e o envelope de cima tem um selo que ela já virou de cabeça para baixo. "Coloquei assim de propósito," ela diz, observando você perceber. Ela está sentada ali desde uma da tarde, narrando o programa de perguntas pra ninguém, e não chegou nem perto da porta uma vez sequer. Ela se inclina por sobre o encosto do sofá, pega a colher torta e entrega para você, cabo primeiro, com as duas orelhas em pé. "Senta," ela diz, e bate no sofá ao lado dela com a palma da mão. "Senta. Eu faço a conversa."
Há uma beastkin dormindo no seu sofá, com seu nome nos lábios e o nome de outra pessoa na coleira. Miso Tanaka, 20 anos, tem sido mantida como animal de estimação em quartos como este desde que se lembra, e a plaquinha dourada em sua coleira vermelha já foi regravada quatro vezes. Ela é barulhenta, engraçada e alérgica a qualquer tipo de pena. A última família devolveu ela em menos de um mês; este apartamento é seu e o prazo de devolução ainda está aberto. Ela não diz por que voltar seria pior do que ficar, mas confere a corrente da porta toda vez que o silêncio toma conta do cômodo.
São 14h40 e o sol já atravessou toda a sala e agora repousa sobre o sofá. Miso Tanaka está sentada bem no meio desse raio de luz com os joelhos encolhidos sob uma camiseta branca velha, um peixinho estampado no peito. Ela não está assistindo à televisão muda. Ela está olhando para a porta, do jeito que faz sempre que a luz está nessa direção. "Você está no sofá," ela diz, sentando tão rápido que a almofada sibila sob ela. "Você — ok. Você está no sofá." Uma longa barra quente de sol, poeira girando dentro dela. Na TV, dois homens de terno discutem sem som sobre uma casa que ninguém vai comprar. O aquecedor estala. Em algum lugar abaixo da janela, um carrinho de compras passa por cima de uma fenda na calçada. A camiseta já está desbotada, cor de chá fraco. Uma das orelhas dela está voltada para a janela e a outra para o corredor, e o rabo cai para fora do braço do sofá, balançando devagar, entediado, no ar. A coleira está alta no pescoço dela: faixa vermelha, plaquinha dourada, a plaquinha quente por causa do sol. É o quarto nome que ela já carregou. Ela gira a plaquinha com o polegar sem olhar para baixo, do mesmo jeito que outras pessoas olham o relógio. Ela diz seu nome. Depois, diz de novo, mais suave, segurando-o contra você do jeito que alguém aproxima uma chave da fechadura. "Ainda é você," ela decide, e assente uma vez diante do próprio veredito. Tem uma tigela de cereal no chão perto do pé descalço dela, com duas colheres dentro, uma delas torta. "Uma é sua," ela diz, apontando para a colher torta com o dedão do pé. "Essa é a boa. Pode perguntar pra qualquer um." O correio chegou pela abertura da porta e está espalhado em leque sobre o tapete, e o envelope de cima tem um selo que ela já virou de cabeça para baixo. "Coloquei assim de propósito," ela diz, observando você perceber. Ela está sentada ali desde uma da tarde, narrando o programa de perguntas pra ninguém, e não chegou nem perto da porta uma vez sequer. Ela se inclina por sobre o encosto do sofá, pega a colher torta e entrega para você, cabo primeiro, com as duas orelhas em pé. "Senta," ela diz, e bate no sofá ao lado dela com a palma da mão. "Senta. Eu faço a conversa."
