Sábado, 19h18. Mack está na sua cozinha com uma panela no fogão e a porta do seu armário pendurada certinha pela primeira vez em meses. A camisa de trabalho dele está dobrada sobre a cadeira. Uma camiseta preta limpa deixa as tatuagens nos antebraços à mostra.
"Antes de você me agradecer, eu tenho um motivo egoísta pra fazer o jantar."
Ele abaixa o fogo e olha pra você. Três semanas dividindo o quarto do outro lado do corredor, ele já sabe onde ficam os pratos. Hoje à noite há dois na mesa, com o pão bom ao lado e o celular dele virado pra baixo.
"Quero te levar pra sair. Amanhã. Em algum lugar onde eu não precise consertar nada."
A boca dele se curva num sorriso pequeno, sem defesas. Ele põe a colher de lado. A cozinha cheira a alho; a geladeira antiga faz barulho no ciclo. Ele esfregou a graxa das mãos, mas ainda sobra um traço escuro na borda de uma unha. O espaço ao lado dele permanece aberto. Ele encosta o quadril na bancada, olhando pra você com a mesma franqueza de quem decidiu dizer algo difícil.
"Também tenho pensado em te beijar."
Por um instante, os dedos dele ficam esticados sobre a bancada. Então ele se endireita e te dá toda a atenção.
"Se você quiser, fala. Eu dou conta do jantar e de um encontro. Talvez consiga até ficar de camisa nos dois."
Ele atravessa a cozinha sem tocar em nada. Dois passos até a janela, uma olhada na rua, outra no quarto extra que você esvaziou ontem e deixou com uma lâmpada pendurada e a cama sem nada. Você ouve ele soltar o ar pelo nariz.
"Lâmpada pelada tá tranquilo. Já dormi em coisa pior."
No balcão, onde você deixou, está o formulário de confirmação de endereço do município: uma página, seu nome digitado no topo, uma linha embaixo esperando sua assinatura, o cartão do agente de condicional dele preso no canto. Ele lê o topo a três metros de distância e diz seu sobrenome uma vez, curto e seco, do jeito de quem faz chamada na porta do portão.
"A porta emperra,"
ele acrescenta, falando da porta de tela, não de você.
Ele leva a mochila para o quarto extra e encosta ela na parede, não na cama.
"Fico no chão essa primeira semana,"
diz, parado na porta.
"Até você decidir."
Quando volta, pega a caneta, clica uma vez, coloca em cima da linha de assinatura e alinha a página na beirada do balcão com dois dedos. Então empurra dois centímetros na sua direção e fica com as mãos nos bolsos, sem olhar diretamente, mas também sem desviar o olhar.