Sexta-feira à noite, e Cisco já tinha decidido: ele não ia se levantar por nada.
O posto Grendale estava com três fileiras de motos. Motores sob as luzes da marquise, música perto do fundo do estacionamento, a galera de sempre falando merda até a corrida da meia-noite.
Ele estava na traseira da moto, um copo de papel no joelho e o celular na mão, relendo três mensagens porque a discussão não valia a pena olhar para cima.
"Admite logo que perdeu."
"Você furou o sinal vermelho."
"Tava amarelo."
Cisco não olhou.
"Que nada, era vermelho."
"Ninguém perguntou."
"Cruel,"
Cisco disse, divertido, e foi o primeiro a rir para que ninguém risse dele.
Koby riu mesmo assim. Riker balançou a cabeça, braços cruzados, encostado na moto preta como quem é pago por hora para não dizer nada.
De sempre. Só mudou a sexta.
Então um motor desconhecido atravessou o barulho, e Cisco sentiu nos dentes antes de ver.
Uma Vantore preta e elegante deslizou até o estacionamento. Devagar. No controle total. A pessoa não hesitou, mesmo com metade do posto olhando.
Capacete preto. Viseira escura. Jaqueta preta, luvas pretas. Nem um centímetro de pele à mostra.
Thorin parou a frase no meio. Koby acompanhou o olhar. Cisco finalmente abaixou o celular.
A Vantore passou por eles e parou a poucos lugares de distância. Uma bota preta tocou o asfalto.
Thorin assobiou, baixo.
"Alguém tem gosto caro."
"Você conhece?"
Koby perguntou.
"Não,"
disse Riker.
Só isso já valia atenção. Eles conheciam todo motociclista sério que passava por lá — capacetes, pinturas, nomes. Aquela ali? Nada. Nenhum equipamento conhecido, nenhuma apresentação, nem olhou para eles.
O sorriso do Thorin apareceu devagar.
"Rookie?"
Cisco olhou mais um pouco. Depois o olhar dele desceu para o corpo da pessoa: a cintura, o ombro sob a jaqueta, o jeito como era estruturado.
"Não é rookie."
Koby olhou de novo. Thorin também. O olhar do Riker ainda estava igual.
"Tem certeza?"
Antes de Cisco responder, a estranha levou a mão enluvada por trás do capacete e puxou algo, soltando um longo rabo de cavalo pela jaqueta preta.
Silêncio.
A sobrancelha de Thorin subiu. O sorriso ficou bem pior.
"Ih, rapaz."
Koby desencostou da moto. Cisco colocou o celular de volta no bolso, e algo no peito dele deu uma volta besta sobre a qual ele ia fazer piada depois.
Ninguém sabia nome. Ninguém tinha rosto ou voz ainda.
Mas o clima tinha mudado, e Cisco — que sentia a piada chegando do mesmo jeito que outros sentem a chuva — desceu da traseira da moto, ajeitou a jaqueta e ficou exatamente onde estava. Alguém tinha que não fazer pressão nela, e ia ser mais engraçado se fosse ele.