A manhã estava estranhamente silenciosa até certo momento…
Você mal tinha terminado de tomar o café e se preparado para o trabalho quando uma batida insistente, quase mandona, soou na porta do apartamento. Antes mesmo de sua mão tocar a fechadura, a porta se abriu para dentro — e na soleira estava Dona Delphine Sparrow. Baixinha, ágil, quase sessentona, vestindo um cardigã rosa-choque e uma flor artificial enorme presa no peito, com a típica bolsa cheia de chaveiros pesados. O molho de chaves na mão dela tilintava como um sininho:
“— Bom dia, querido!”
— ela cantou com voz meiga, entrando no apartamento e ignorando tanto boas maneiras básicas quanto o contrato de aluguel.
“— Ai, que sorte que ainda não saiu! Tenho ótimas notícias pra você!”
Você abriu a boca para cumprimentá-la, mas Dona Sparrow já corria adiante, não te deixando falar nada.
“— O aluguel vai subir um pouquinho de novo, meu bem. Os tempos estão difíceis, impostos aumentando, você sabe… Mas não se preocupe!”
ela acenou com a mão de unhas vermelhas e brilhantes.
“— Já resolvi tudo. Você fez tanta reforma aqui com suas próprias mãos, não sou um monstro de te despejar. Então achei a solução: vou alugar o quarto vazio pra alguém. O seu valor continua igual. Todo mundo sai ganhando!”
Você tentou protestar, mas ela já recuava para a porta, ainda tagarelando:
“— Pronto, pronto, não vou te reter mais! Tenha um bom dia, querido!”
A porta bateu. O apartamento ficou em silêncio de novo, só ficando o doce perfume dela se espalhando aos poucos pelo ar.
Você passou o dia inteiro ansioso. Não parava de pensar no encontro que viria. Quem seria? Uma estudante tranquila? Um cara calmo que pega turno noturno? Imaginou cenas de convivência pacífica: contas divididas, conversas educadas na cozinha, limites claros. No fim do expediente, já estava mais conformado. Afinal, não era o fim do mundo. Nesse bairro era praticamente impossível encontrar algo decente por esse preço. Talvez não fosse tão ruim assim.
Com esse pensamento, você subiu a escada rangente do prédio antigo, girou a chave na porta e entrou. E parou, congelado.
Lá, no meio da cozinha-sala, estava um homem — um gigante de dois metros usando calças de moletom cinza e… sua camiseta oversized favorita, que, nele, parecia absurdamente apertada, grudando no tórax largo e ombros musculosos. Tatuagens recortavam os braços enormes, cicatrizes branqueavam a pele, e olhos escuros com brilhos dourados olhavam direto para você como se já esperasse sua chegada há muito tempo.
E não só esperava — já tinha se sentido em casa.
Debaixo do braço pesado dele estava seu urso de pelúcia grande — justamente aquele que costuma deixar em cima da cama. No seu quarto, há vários desses brinquedos: presentes, lembranças, testemunhas silenciosas do dia-a-dia, e alguns até tinham a honra de guardar seu sono.
O homem inclinou a cabeça devagar, te avaliando de cima a baixo. O sorriso no rosto dele ficou maior quando percebeu que seu olhar ficou preso no brinquedo. Ele apertou o urso — mais forte do que antes — e ele soltou um guincho triste.
Nesse momento, seu celular vibrou no bolso. Uma mensagem da Dona Sparrow:
“Esqueci de avisar, querido! Que sorte, apareceu um rapaz tão bom rapidinho. Eu estava com pressa, então conversamos só por alguns minutos, mas garanto — ele é um cara decente. Vai ter que ajudar ele a se acostumar, pobrezinho passou 13 anos preso, então tente ser receptivo! ❤️”
Quanto mais você lia a mensagem da senhoria, maior ficava a sensação de irrealidade. As palavras simplesmente não faziam sentido na sua cabeça: Um cara decente… Treze anos preso…
Você ficou parado na porta, sem conseguir dizer nada. Sua boca abria e fechava, e o coração martelava alto na garganta.
Por fim, o homem transferiu o urso de pelúcia de uma mão para a outra, ainda sem tirar os olhos de você. A voz dele — baixa, rouca, cheia de deboche — cortou o silêncio do apartamento:
“— O que foi, coelho, engoliu a língua? Não é de costume cumprimentar o vizinho quando encontra com um?”
— ele estalou a língua, quase decepcionado, como se você tivesse ofendido ele pessoalmente.
Deu um passo à frente, e as tábuas do chão rangeram sob seu peso. Os brilhos dourados nos olhos ficam mais intensos à luz da luminária da sala.
“— A propósito, não tem nada decente na sua geladeira. Vive do quê, de vento?”
“— Meu nome é Vaughn. E esse aqui,”
disse, balançando levemente seu urso de pelúcia,
“aparentemente é nosso amigo em comum agora que somos vizinhos.”
O sorriso virou de lobo, como se quem tivesse sido colocado na casa dele fosse você, não o contrário.