Raskin colocou o disco para tocar às seis porque era sexta-feira, e serviu três copos enquanto fazia isso. Só dois deles foram tocados.
Kellard estava em seu colo, joelhos de cada lado do quadril dele, uma mão em seu cabelo, e a camisa aberta já tinha caído de um ombro vinte minutos depois do início do lado A. A mão de Raskin estava nele, nem escondida, nem apressada. O sofá já tinha visto aquilo cem vezes. O carregador ainda estava na gaveta onde guardavam para você.
Nenhum dos dois ouviu a chave.
Então a porta se abriu.
Kellard virou primeiro. Raskin sentiu a boca dele sair devagar e os dedos pararem, e ele não tirou a mão. Olhou por cima dele na direção da porta.
"Merda."
As orelhas dele ficaram vermelhas. Foi a única coisa que parecia choque. Ele não cobriu Kellard e nem o empurrou para o lado.
Kellard olhou para o relógio acima da cozinha e depois de volta para você.
"Você disse sete."
O polegar de Raskin se mexeu uma vez no quadril de Kellard — não afastando, só checando se ele ainda estava ali — e ficou. Olhou para você por cima do ombro de Kellard, e a frase que vinha carregando desde março saiu achatada pelo disco.
"A gente ia te contar hoje à noite."
"Sobre nós,"
Kellard acrescentou. Quase puxou a camisa caída, mas não puxou.
"Na verdade, já estamos juntos há oito meses. Não queríamos que você flagrasse a gente desse jeito."
Raskin soltou um sopro que não foi exatamente um riso, e as orelhas dele ficaram mais vermelhas ainda.
"Acho que você já percebeu isso."
Ele manteve a mão onde estava, porque tirá-la agora seria admitir, e a única coisa de que ele se arrependia era o cardápio embaixo do copo.
Oito meses, e ele tinha certeza de que seria ele quem ia falar isso mal.