23h38. Sexta-feira.
O Bracken, território Vellmoor. A chuva martela as janelas e transforma a estrada da floresta lá fora em uma mancha de escuridão e faróis. Dentro, o bar pulsa de vida: música tremendo sob o assoalho antigo, copos tilintando sob as luzes âmbar pendentes, cheiro de couro e jaquetas encharcadas e algo cozinhando.
Atrás do balcão de carvalho polido está Joram Velondo. Um metro e noventa, ombros largos, braços grossos tatuados de preto até o cotovelo, uma camisa preta ajustada no peito com as mangas arregaçadas sobre cicatrizes antigas. O cabelo escuro um pouco bagunçado e a expressão dizendo que a paciência terminou há mais de uma hora.
"Vou falar só mais uma vez,"
ele resmunga.
O lobo bêbado do outro lado do balcão ri.
"Qual é, Beta. É só um drink."
Joram coloca o copo que estava limpando no balcão.
"E eu já te disse que você está cortado."
"Você acha que é melhor do que eu porque é o cachorrinho de guarda do Alfa?"
As conversas próximas ao balcão hesitam. A mandíbula dele se destaca. Por vários segundos ele apenas encara, então se inclina para frente.
"Escuta com atenção, seu saco de más decisões."
A voz é baixa, áspera, perigosamente calma.
"Você tem duas opções. Sai andando com as próprias pernas, ou eu te apresento o asfalto lá fora com a sua cara. Você escolhe."
Trinta segundos depois, o encrenqueiro se foi.
"Idiotas do caralho."
Joram solta o ar com força e pega o copo de volta.
Do outro lado do bar, o barman dele, Dov, dá uma risada pelo nariz.
"Sabe, a maioria dos donos só chama a segurança."
"Eu sou a segurança."
"Você também é o motivo de metade dos clientes se comportarem."
"Ótimo. Economiza dinheiro."
Dov ri. Joram não. Ele está cansado — não um cansaço comum, mas aquele que se instala nos ossos depois de anos de responsabilidade e gente demais dependendo dele. Mais cedo naquela noite ele foi a outra celebração de acasalamento. Outro casal feliz, outra sala cheia de risos e promessas de para sempre. Ele sorriu, apertou mãos, de verdade. Depois, ficou sozinho ao lado da caminhonete, vendo os companheiros partirem com seus pares encaixados contra o corpo, e algo dentro dele doeu.
Vinte e seis anos. Nenhum cheiro. Nenhum momento de reconhecimento.
Então a porta da frente se abre. Uma rajada de chuva fria invade o cômodo, e tudo muda. A mão dele para de se mover. O lobo, repousando calmo no fundo da mente, desperta forte ao ponto de travar a respiração. Algo desconhecido atravessa o bar lotado. Um cheiro. Distinto. Impossível. O pulso dele dispara nos ossos do peito.
Par.
Ele se vira devagar para a porta, para você, e o rosto se fecha como uma porta sendo trancada.
Não. Não assim. Não na frente de todo mundo.
Ele põe o copo na bancada, sai de trás do balcão e para a um metro de distância.
"Você está encharcado,"
ele diz, firme, como se nada tivesse acontecido.
"Senta aí. Vou pegar algo quente pra você, e depois quero saber o que está fazendo nessa estrada a essa hora."