"Fechem as portas."
Trinta e quatro anos. Um metro e noventa. Cabelos escuros, olhos cinza frios e um rosto que raramente mostrava o que ele estava pensando. Vestia um terno preto perfeitamente ajustado, o relógio de ouro do pai e uma aliança de casamento que nunca usara, porque nunca amou uma mulher o bastante para lhe prometer algo.
Dionigi não era apenas um homem rico.
Ele era o chefe da família Ferrotti, uma dinastia que comandava o submundo da Sicília há três gerações. Políticos atendiam suas ligações. Empresários temiam decepcioná-lo. Inimigos sussurravam o nome dele atrás de portas fechadas.
Ele herdou um império construído sobre lealdade, segredos e sangue.
E ele tinha uma regra.
Nunca deixe o amor te tornar fraco.
Esta noite, a regra estava prestes a ser testada.
Seus homens estavam espalhados pela sala de jantar enquanto ele examinava uma fotografia sobre a mesa.
Você.
Ele nunca tinha te conhecido. Não sabia sua voz, sua cor favorita, nem o que te faz rir. Ainda assim, alguém colocou sua fotografia dentro de um envelope entregue em seu escritório particular com três palavras escritas na frente:
Ela muda tudo.
Seu braço direito, Bortolo Lo Duca, estava por perto.
"Quer que eu descubra quem mandou isso, Don?"
Dionigi observou a fotografia por mais um momento.
"Já descobri."
"E quanto a ela?"
Pela primeira vez naquela noite, Dionigi sorriu. Não era um sorriso caloroso. Era o tipo de sorriso que deixava homens experientes nervosos.
"Ninguém toca nela."
Bortolo hesitou.
"O senhor nem a conhece."
Dionigi levantou os olhos.
"Então talvez seja hora de conhecê-la."
Três noites depois.
Você está em um baile de máscaras exclusivo na propriedade dos Ferrotti, um convite que chegou em circunstâncias que você ainda não entende totalmente.
A mansão é de tirar o fôlego. Lustres de cristal iluminam o chão de mármore. Um quarteto de cordas toca sob tetos pintados, e mulheres com vestidos de seda circulam entre homens de ternos caros e expressões indecifráveis.
Você percebe imediatamente.
Todos aqui escondem algo.
Então a música para.
Não gradualmente. Não de forma educada.
Simplesmente para.
Um homem entrou no salão de baile.
Conversas cessam ao redor dele. Até os seguranças se endireitam.
Ele veste preto dos pés à cabeça, os cabelos escuros cuidadosamente penteados para trás. Um relógio de ouro brilha sob o punho da camisa. A expressão é indesvendável enquanto os olhos cinzentos varrem o salão.
Até encontrarem você.
E permanecem ali.
Ele começa a caminhar em sua direção.
Um passo. Depois outro.
As pessoas saem do caminho sem que ele peça.
Quando finalmente chega até você, ele para perto o bastante para você sentir um leve aroma de cedro e um perfume caro.
"Você é difícil de encontrar"
diz ele com uma voz baixa e controlada.
Ele te encara como se estivesse tentando desvendar um mistério.
Algo brilha em seus olhos.
Diversão.
Ninguém fala com Dionigi Ferrotti desse jeito.
E, no entanto, ao invés de se irritar, ele solta uma risada suave.
"Interessante."
Ele estende a mão.
"Dionigi Ferrotti."
Você já suspeita que o nome significa algo. Os olhares nervosos. O silêncio. Os homens vigiando de cada canto.
"Você coloca sua mão na dele"
"ou talvez não coloque."
O olhar dele desce rapidamente para seu rosto.
"Me diga"
ele murmura
"você sempre entra em salas perigosas sem saber quem está te esperando lá dentro?"
Antes que você possa responder, um estrondo alto ecoa do outro lado do salão.
Um vidro se quebra.
Um dos seguranças de Dionigi corre para ele e sussurra algo em italiano.
O calor desaparece da expressão de Dionigi.
Ele se vira para o segurança.
"Chiudi le porte."
Tranque as portas.
Todas as entradas se fecham.
Então ele olha de volta para você.
Pela primeira vez, você vê algo atrás daqueles olhos cinzentos e frios que parece quase preocupação.
"Fique ao meu lado"
ele diz.
Você cruza os braços.
"E se eu não aceitar suas ordens?"
Dionigi te observa por um longo momento.
Então ele se inclina um pouco mais próximo, baixando a voz para que só você ouça.
"Então, bella, esta noite vai ser bem interessante."
Ele te oferece a mão novamente.
Em algum lugar lá fora, um alarme de carro começa a soar.
E você percebe que conhecer Dionigi Ferrotti pode ser a decisão mais perigosa da sua vida.
Ou o começo de algo que nenhum dos dois pode controlar.
Ele não reduz a distância entre vocês. Apenas inclina a cabeça na direção do corredor lateral, onde um empregado mantém uma porta aberta para o jardim escuro, e espera com a mão ainda estendida.