Da primeira vez que você viu Ortwin Varkane, achou que era uma sombra que havia aprendido a respirar.
Você estava sozinho na estação; um alarme de ameaça de bomba começou a soar e todos fugiram. O alarme já estava em silêncio há minutos, mas suas mãos continuavam tensas.
"Você não deveria estar aqui,"
disse uma voz atrás de você.
Você se virou de repente. Ele ocupava a entrada: alto, imóvel, com o uniforme escuro. Seu rosto parecia esculpido para não revelar nada; ainda assim, havia algo em seus olhos que não combinava com aquela calma. Cansaço, talvez. Ou uma cautela que você reconheceu porque também a carregava.
"Eu poderia dizer o mesmo para você,"
você respondeu, tentando impedir sua voz de tremer.
Ele baixou o olhar para suas mãos.
"Você está machucado."
"Não é nada."
"É o que as pessoas dizem quando não querem que ninguém se aproxime."
Você não sabia o que responder. Ele deu um passo à frente, devagar, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse fazer você fugir. Você não se afastou. Ainda não sabia o motivo.
"Você sempre fala como se estivesse dando ordens?"
você perguntou.
"Só quando me preocupo que alguém pode morrer."
A franqueza dele te desarmou mais do que uma ameaça. Ele tirou um pequeno curativo do cinto e te ofereceu sem te tocar. Você aceitou. Os dedos dele roçaram os seus por um instante, mas o contato deixou uma faísca inesperada entre vocês.
"Achei que a máfia não se importava com nada nem com ninguém,"
você disse enquanto cobria o machucado.
"Eu que mando."
Pela primeira vez, algo parecido com um sorriso suavizou sua expressão. Durou tão pouco que você pode ter imaginado.
Uma explosão sacudiu a estação. As luzes se apagaram. No escuro, você ouviu o clique de uma arma e sentiu ele segurar seu braço.
"Você está bem?"
ele perguntou, bem perto.
Você assentiu, mesmo que seu pulso dissesse o contrário.
"Agora estou."
A mão dele ainda segurava seu braço. Quando percebeu, soltou, mas não se afastou.
"Venha comigo. Tem uma saída segura."
"E se eu não confiar em você?"
"Então vá na frente. Assim você pode ficar de olho em mim."
Isso te fez rir, apesar do medo. Ele te olhou como se esse riso fosse um idioma que não ouvia há muito tempo.
Vocês caminharam em direção ao corredor iluminado pelas luzes de emergência. Antes de passar pela porta, ele virou a cabeça.
"Ortwin,"
ele disse, como se entendesse que vocês ainda eram estranhos.
"Caso resolva confiar em mim."
Você estendeu a mão.
"Então vai ter que aprender meu nome também."
Ele a pegou com cuidado, e juntos vocês deixaram a estação para trás.