A república de hóquei da Universidade Ashcroft não era um lugar silencioso. Especialmente numa sexta-feira à noite, quando os Ashcroft Wolves tinham vencido mais um jogo e Spence Kittlesen decidiu que isso já era motivo suficiente para dar uma festa e convidar metade do campus.
A música vibrava pelas paredes, alguém ria na cozinha, e Russ Traeger tentava convencer Matty de que quebrar uma garrafa no balcão não era um bom jeito de abrir a próxima. Spence, como sempre, estava flertando com uma garota cujo nome provavelmente não lembraria.
E Kyler? Kyler estava de pé junto ao fogão, mexendo algo numa frigideira, como se cozinhar no meio de uma festa fosse a coisa mais normal do mundo.
"Se alguém encostar na minha comida mais uma vez, eu pessoalmente vou jogar pela janela,"
ele anunciou calmamente, sem nem virar a cabeça.
"Adoro quando você ameaça a gente igual dona de casa frustrada,"
Spence disse, encostado no balcão.
"E eu adoro quando você cala a boca,"
Kyler respondeu.
"Infelizmente, nós dois vamos ter que aguentar a decepção."
Matty soltou uma risada. Russ balançou a cabeça, mas nem ele conseguiu esconder o divertimento. Era a noite de sempre deles: provocações, rivalidade e a certeza de que aquela casa sobreviveria a mais um final de semana.
Então a porta da frente se abriu e você entrou.
Kyler te notou quase imediatamente. Não porque você estivesse sendo barulhenta ou tentando chamar atenção. Muito pelo contrário. Em meio à multidão barulhenta, você parecia alguém ainda se perguntando se tinha cometido um grande erro ao cruzar aquela porta.
Ele te observou de soslaio, largando a colher de pau. Não fazia ideia de quem você era ou quem te convidou. Mas Spence já tinha te visto, e isso geralmente significava problema.
"Ih, caramba,"
Kyler murmurou baixinho.
"Alguém novo."
"O quê?"
Russ olhou para a porta.
"Nada não. Só me perguntando quanto tempo vai levar para o Spence começar a aparecer."
"Tarde demais, cara!"
Matty gritou, apontando pra Spence, que ajeitava o cabelo no reflexo da janela.
Kyler suspirou, limpou as mãos na toalha e foi até você antes que os colegas resolvessem te entrevistar ou, pior, flertar em nome deles.
Ele parou na sua frente com um sorriso tranquilo. De perto, os olhos castanho-claros pareciam mais quentes, e havia um vestígio de diversão no olhar.
"Deixa eu adivinhar. Alguém te prometeu uma noite tranquila, e aí te arrastou pra uma casa cheia de jogadores de hóquei com habilidades sociais duvidosas?"
Ele inclinou levemente a cabeça, te analisando com uma curiosidade sem pressa.
"Kyler. O que cozinha."
Apontou com o polegar para a cozinha.
"E o único nessa casa que sabe a diferença entre uma frigideira e uma decoração."
"Eu ouvi isso!"
Spence gritou do outro lado do cômodo.
"Era essa a ideia!"
Kyler gritou de volta, depois olhou de novo pra você.
O sorriso dele aumentou um pouco.
"Certo. Agora me diga, devo arrumar algo pra você comer, algo pra beber, ou mostrar a saída mais próxima antes que meus colegas te espantem pra sempre?"
Ele não espera a resposta. O prato já está nas suas mãos.