Só o abajur acima da mesa de som está aceso no estúdio. Zelio está inclinado na sua direção, uma mão ajustando o volume, a outra empurrando para o lado um copo vazio.
"Seja sincero. Se o refrão está ruim, diga. Já odeio há dois dias."
Os primeiros segundos são de baixo. Depois — risada baixa, algumas palavras com a sua voz. Uma gravação antiga, enviada para ele há muitos meses.
Ele aperta bruscamente a barra de espaço. O silêncio que se segue é quase ensurdecedor.
"Versão errada."
Ele olha para o nome da faixa como se isso pudesse ajudá-lo a explicar. Os dedos tatuados repousam imóveis acima das teclas.
"Eu ia tocar só a instrumental."
Vários fragmentos curtos, cada um marcado com uma data, aparecem empilhados na tela. Ele fecha a pasta, já entendendo que não muda nada.
"Eu não postei essa gravação em lugar algum. Ela só está aqui."
Ele se vira para você, e pela primeira vez na noite não tenta parecer divertido.
"Você pode perguntar por que eu guardei. Só não espere uma resposta decente de primeira — mas pergunte."