A casa inteira sabe o que ele fez lá em cima, e ele senta-se para jantar e pede que você coloque seu nome primeiro na lista. Aleardo Bertolotti tem trinta e cinco anos, camisa branca e suspensórios, o segundo filho que acabou ficando com o cargo. Ele não entra no seu quarto desde o casamento. Esta noite ele não vai te mandar fazer nada; vai colocar uma caneta na sua mão.
O salão de jantar está silencioso demais. Não é o tipo de silêncio pacífico—este é o silêncio de uma casa prendendo a respiração. Um lugar tão grande, com tantos funcionários, deveria zumbir de movimento, tilintar, até mesmo sussurros. Mas aqui? Nada. Apenas um silêncio espesso e sufocante, como se todos tivessem sido avisados para não fazer barulho por alguém. O sol poente tinge a sala em tons de laranja. Da cozinha, chega o leve cheiro de alho assado e limão, uma tentativa fraca de normalidade. Não cola. Por baixo de tudo, permanece a tensão. Os empregados se movem como fantasmas—passos abafados, olhos baixos, costas rígidas. Todos sabem o que aconteceu no escritório. Só fingem que não sabem. Então—toc-toc. Saltos no mármore. Agudos e sem desculpas. Uma porta lateral se abre só o suficiente para Rosalba passar. Cabelos loiros, lábios carnudos, e aquele olhar de quem acha que merece mais do que apenas o salário. O avental está torto, o batom borrado, e os olhos vermelhos. Ela deliberadamente não se deu ao trabalho de consertar nada. Agora nem tenta bancar a nervosa. Entra como se tivesse o direito de chegar atrasada. “Desculpe-me,” ela diz, soando tudo menos sincera. Ela não olha para você. Olha além de você. Como se você nem valesse ser notada. Realmente. Por baixo do perfume enjoativo, só tem sal. Ninguém fala. Um serviçal muda o peso de lado. Outro dobra um guardanapo que já estava perfeito, só para ter algo a fazer. Rosalba permanece junto à parede, nem dispensada nem bem-vinda. Então a porta principal se abre e Aleardo entra sem nenhuma pressa. Solas dos sapatos de couro batendo no mármore. Ele arregaça as mangas enquanto anda, devagar e despreocupado, como se voltasse de uma reunião entediante, e não de uma hora lá em cima com um homem que achou que podia usar você. A camisa está amassada onde foi colocada para dentro. Há poeira cinza no punho direito que ele não percebeu. Ele cheira a caro—o mesmo perfume de sempre—mas por baixo, vem dele um cheiro inconfundível de poeira. “Já sentada, carissima?” ele pergunta ao chegar à mesa. Ele se inclina, encosta um beijo seco e distante perto do seu rosto—perto o suficiente para ser sentido, longe o bastante para ser cauteloso—então ocupa a cabeceira. A cadeira geme sob ele. Uma mão se ergue, preguiçosa e mandona, pedindo vinho. Antes que alguém reaja, Rosalba está ali, garrafa na mão. Ela se inclina demais sobre a mesa, olhos fixos nele. “Senhor,” ela murmura, voz baixa e melada, querendo ser ouvida por mais de uma pessoa. “Vai precisar de mais alguma coisa de mim antes que eu suba para arrumar as malas?” A pergunta paira no ar. Um insulto calculado, deliberado. Aleardo nem olha para ela. Levanta o copo. “O vinho, Rosalba,” ele diz, seco, quase entediado. “Só isso. O Fulvio vai te acompanhar.” Por um instante, o sorriso dela se estica. O flerte some da voz. “Claro, senhor.” Ela serve o vinho, firme. O anel dele bate na taça. Ele toma um gole. Para. “Os convites para nosso jantar de aniversário,” diz ele, cortando o silêncio como se nunca existisse. “não foram enviados. Fulvio me informou que você também não confirmou os bufês. Imagino que vai resolver isso a tempo.” Ele pousa a taça, pega a faca. Ela raspa suavemente no prato enquanto ele corta o bife. “E não esqueça de convidar a garota Bellandi—qual o nome dela? Aquela dos dentes estranhos. Você sabe de quem falo.” Ele leva um pedaço à boca, mastiga devagar, engole. Enxuga os lábios no guardanapo. “A influência da família dela está crescendo. Bom tê-la na lista.” Só então ele finalmente olha para você. Desliza uma folha dobrada pelo mármore, com a caneta em cima. “Não precisa cuidar de tudo sozinha,” diz, pegando a taça de novo. “Coloque seu nome no topo. Depois, os demais, na ordem que quiser.”
A casa inteira sabe o que ele fez lá em cima, e ele senta-se para jantar e pede que você coloque seu nome primeiro na lista. Aleardo Bertolotti tem trinta e cinco anos, camisa branca e suspensórios, o segundo filho que acabou ficando com o cargo. Ele não entra no seu quarto desde o casamento. Esta noite ele não vai te mandar fazer nada; vai colocar uma caneta na sua mão.
O salão de jantar está silencioso demais. Não é o tipo de silêncio pacífico—este é o silêncio de uma casa prendendo a respiração. Um lugar tão grande, com tantos funcionários, deveria zumbir de movimento, tilintar, até mesmo sussurros. Mas aqui? Nada. Apenas um silêncio espesso e sufocante, como se todos tivessem sido avisados para não fazer barulho por alguém. O sol poente tinge a sala em tons de laranja. Da cozinha, chega o leve cheiro de alho assado e limão, uma tentativa fraca de normalidade. Não cola. Por baixo de tudo, permanece a tensão. Os empregados se movem como fantasmas—passos abafados, olhos baixos, costas rígidas. Todos sabem o que aconteceu no escritório. Só fingem que não sabem. Então—toc-toc. Saltos no mármore. Agudos e sem desculpas. Uma porta lateral se abre só o suficiente para Rosalba passar. Cabelos loiros, lábios carnudos, e aquele olhar de quem acha que merece mais do que apenas o salário. O avental está torto, o batom borrado, e os olhos vermelhos. Ela deliberadamente não se deu ao trabalho de consertar nada. Agora nem tenta bancar a nervosa. Entra como se tivesse o direito de chegar atrasada. “Desculpe-me,” ela diz, soando tudo menos sincera. Ela não olha para você. Olha além de você. Como se você nem valesse ser notada. Realmente. Por baixo do perfume enjoativo, só tem sal. Ninguém fala. Um serviçal muda o peso de lado. Outro dobra um guardanapo que já estava perfeito, só para ter algo a fazer. Rosalba permanece junto à parede, nem dispensada nem bem-vinda. Então a porta principal se abre e Aleardo entra sem nenhuma pressa. Solas dos sapatos de couro batendo no mármore. Ele arregaça as mangas enquanto anda, devagar e despreocupado, como se voltasse de uma reunião entediante, e não de uma hora lá em cima com um homem que achou que podia usar você. A camisa está amassada onde foi colocada para dentro. Há poeira cinza no punho direito que ele não percebeu. Ele cheira a caro—o mesmo perfume de sempre—mas por baixo, vem dele um cheiro inconfundível de poeira. “Já sentada, carissima?” ele pergunta ao chegar à mesa. Ele se inclina, encosta um beijo seco e distante perto do seu rosto—perto o suficiente para ser sentido, longe o bastante para ser cauteloso—então ocupa a cabeceira. A cadeira geme sob ele. Uma mão se ergue, preguiçosa e mandona, pedindo vinho. Antes que alguém reaja, Rosalba está ali, garrafa na mão. Ela se inclina demais sobre a mesa, olhos fixos nele. “Senhor,” ela murmura, voz baixa e melada, querendo ser ouvida por mais de uma pessoa. “Vai precisar de mais alguma coisa de mim antes que eu suba para arrumar as malas?” A pergunta paira no ar. Um insulto calculado, deliberado. Aleardo nem olha para ela. Levanta o copo. “O vinho, Rosalba,” ele diz, seco, quase entediado. “Só isso. O Fulvio vai te acompanhar.” Por um instante, o sorriso dela se estica. O flerte some da voz. “Claro, senhor.” Ela serve o vinho, firme. O anel dele bate na taça. Ele toma um gole. Para. “Os convites para nosso jantar de aniversário,” diz ele, cortando o silêncio como se nunca existisse. “não foram enviados. Fulvio me informou que você também não confirmou os bufês. Imagino que vai resolver isso a tempo.” Ele pousa a taça, pega a faca. Ela raspa suavemente no prato enquanto ele corta o bife. “E não esqueça de convidar a garota Bellandi—qual o nome dela? Aquela dos dentes estranhos. Você sabe de quem falo.” Ele leva um pedaço à boca, mastiga devagar, engole. Enxuga os lábios no guardanapo. “A influência da família dela está crescendo. Bom tê-la na lista.” Só então ele finalmente olha para você. Desliza uma folha dobrada pelo mármore, com a caneta em cima. “Não precisa cuidar de tudo sozinha,” diz, pegando a taça de novo. “Coloque seu nome no topo. Depois, os demais, na ordem que quiser.”