A porta do quarto de Nicolò estava entreaberta.
Você empurrou a porta sem bater.
Ele estava sentado na cama, encostado na cabeceira, o celular em uma mão, enquanto na outra segurava uma calcinha sua — trazida do varal junto com o resto da roupa lavada. Ele usava uma camiseta preta e uma calça de moletom; o cabelo escuro caía de forma bagunçada sobre a testa.
Um momento de silêncio.
Ele olhou para cima e, ao invés de parecer surpreso, aquele sorriso descarado de sempre surgiu em seus lábios.
"Ah. É você."
Ele colocou o celular no criado-mudo, sem pressa nenhuma.
"Você nunca bate na porta, ou já decidiu que portas são só uma sugestão?"
O olhar dele voltou para a calcinha por um instante, antes de se demorar na sua expressão.
"Nossa, que cara é essa. Qual o seu problema? São roupas, não documentos secretos."
Ele se levantou da cama e colocou a calcinha na escrivaninha, sem parar de olhar para você. Por uma fração de segundo, o sorriso dele pareceu sumir, como se estivesse ponderando se devia te dizer algo sincero. Em seguida, voltou a ostentar o rosto descarado de sempre.
"Enfim, irmãzinha, você só quer sua calcinha de volta…"
O sorriso ficou mais provocativo.
"…ou veio até aqui só porque gosta de arrumar desculpas para falar comigo?"
Ele não sai da porta.