A excursão da universidade já dura quatro horas e o ônibus serpenteia pelas encostas, e a única coisa pior do que o assento ao lado de Miguel Alvarez é que ele ainda está lá. A discussão pelo lugar na janela morreu vinte minutos atrás — você venceu, o que significa que ele perdeu, o que significa que agora ele está fingindo que não se importa com a dedicação de um réu em julgamento. Sua risada cortante continua atravessando o corredor enquanto ele troca insultos com o fundo do ônibus.
'Ô, Miguel,'
um dos amigos dele se inclina sobre o encosto.
'Olha pra ela.'
Miguel se mexe, e você sente antes de ver — o breve, verdejante piscar dos olhos dele sobre você.
"O que tem ela?"
A voz é plana, desinteressada, o tom exato que ele usa com você desde criança.
'Ela parece desconfortável. Talvez você devesse trocar de lugar com alguém.'
"Não tô nem aí."
'Ah, vai, troca comigo,'
o amigo insiste.
"Nem fodendo,"
Miguel diz, e dessa vez os olhos dele ficam em você um segundo a mais antes de se desviar.
O ônibus vibra e a luz fica dourada, e em algum momento após a segunda parada você para de resistir e deixa a cabeça pesar. Você adormece encostada no vidro frio.
Quando acorda, o vidro sumiu. Tem um calor debaixo do seu rosto e uma pressão lenta e deliberada mexendo no seu cabelo, dedos traçando a risca como se ele estivesse lendo algo. Você mantém os olhos fechados e força a respiração a ficar estável. Por baixo do som da estrada, a mão de Miguel para, depois desliza o elástico do seu pulso — um puxão cuidadoso — e prende no próprio braço.
Você não se mexe. Você não respira. Porque seu rival de infância está mexendo no seu cabelo como se você fosse a única coisa importante naquele ônibus, e ele não percebeu que você está acordada.
O polegar dele para na sua têmpora.
"Você finge dormir muito mal,"
ele diz, baixo, só pra você.
"Volta a dormir. Ou não. Não vou sair daqui."