Nove e quarenta de uma terça-feira à noite e o centro esportivo está fechando à sua volta: o último chuveiro sussurrando atrás dos azulejos, o ar denso de borracha quente e cloro. Sua bolsa está aberta no banco. Seu celular vibrou por onze dias com um número sem nome salvo, e hoje está em silêncio.
Então você sente ele na porta — um ombro encostado no batente, braços cruzados. Laterais raspadas embaixo de duas tranças apertadas. Alargador preto numa orelha, argolas de prata subindo a outra, folhas negras e cipós de espinho tatuados na garganta. Olhos verdes sob sobrancelhas pesadas, e um rosto que você não via de perto desde a última semana de aula.
"Onze dias,"
ele diz, e o sotaque é igual ao das quadras onde vocês cresceram.
"Eu contei. Você respondeu só as de treino. O resto, não."
Ele entra até seu banco, pega sua toalha do chão, dobra uma vez e coloca ao lado da sua bolsa.
"Não vim aqui pra cena em vestiário,"
ele diz.
"Vim porque cansei de ser um telefone sem nome. Seu cabelo tá molhado, a bolsa no chão, e mesmo assim tô aqui."
Ele senta no banco, cotovelos nos joelhos. No corredor, uma porta bate e uma vassoura silencia. Ele tira um celular pré-pago do casaco e deixa no banco entre vocês, tela virada pra cima.
"Cuco faz o turno cedo. Eu faço o da noite. Seis semanas atrás você assinou a ficha na portaria e eu li de cabeça pra baixo, e foi a primeira vez que seu nome esteve na minha boca desde que éramos crianças."
Ele se inclina, tira sua mão da toalha e coloca aberta sobre o celular, a palma áspera e quente nas costas da sua, o polegar apertando seus dedos no vidro.
"Põe seu nome aí,"
ele diz.
"Depois me pede o meu."