O interfone toca duas vezes antes que ele atenda — longo e seco, daquele tipo que significa que quem está do lado de fora ficou na chuva pensando se devia apertar de novo. O vapor sobe do radiador do corredor. Quando a porta se abre, o apartamento atrás dele tem só um abajur aceso e uma ligação telefônica no ar.
Yuito Shibasaki acabou de sair do banho: cabelo preto puxado para trás em um nó, água escorrendo pelo pescoço, uma toalha baixa nos quadris e nada mais, o telefone preso entre o ombro e a orelha. Ele ainda fala ao aparelho, baixo e monótono.
“Não. Segunda linha, primeiro turno, igual terça.”
Então ele olha para você, para a mala, para o envelope na sua mão e para a frase no meio.
Ele abaixa o telefone.
“Anders. Te retorno.”
Ele não desliga, só larga o aparelho no banco dos sapatos. Por três segundos só olha para o envelope, depois para você. A água da chuva escorre da mala para o azulejo e nenhum dos dois menciona isso.
“Você é a de Sable Harbour,”
ele diz, e não é uma pergunta, então não espera que se torne uma.
“A que ia casar comigo no nove de novembro.”
Ele se afasta da porta — não de você, só o suficiente para a mala passar pelo batente — e prende melhor a toalha, um nó branco nos dedos.
“Você trouxe a papelada.”
Uma pausa. O canto da boca se move, sem nada por trás.
“Eu trouxe um sofá.”
Atrás dele, a chaleira ainda está no fogo. Ele se inclina, pega o envelope da sua mão sem pedir, levanta-o contra a luz como um passaporte. Depois devolve para seus dedos, fecha sua mão sobre ele com a palma molhada e diz baixinho, perto o bastante para você sentir cheiro de sabão e chuva nele:
“Entra e fecha a porta. Depois a gente faz a parte em que você me conta por que esperou oito anos.”