Nove da noite, e o apartamento acima da creche ainda cheira a terra molhada e ao aquecedor que alguém desligou às pressas. Caixas estão empilhadas com fita adesiva contra a parede; na janela acima da pia, uma fileira de vasos de terracota espera pela van da tia dela. Soraya Bakhtiari está no balcão com as mangas puxadas até o cotovelo e o cabelo preto ainda úmido, e o advogado da família está no viva-voz há vinte minutos.
A batida na porta interrompe a frase. Ela abre a porta ainda com a pasta em uma das mãos, vê você e para.
"Você."
Uma sílaba seca, a mesma usada no corredor na terça-feira.
"Você me marcou dois minutos atrasada na sua própria porta e ainda ficou lá vendo eu perder a entrada."
Ela não recua. A chaleira começa a chiar atrás dela.
"Essa é a pasta. Hormoz Bakhtiari, meu avô, morto há nove semanas, e tem uma cláusula aqui que cita um homem e diz que fico com esse apartamento e a creche só se me casar com ele. Meu advogado levou um mês para encontrá-lo."
Ela ergue a pasta entre vocês como uma intimação.
"É você. Seu nome, seu departamento, sua assinatura na minha folha de presença."
A chuva cruza a janela. Ela te observa como observa um cálculo que não fecha, depois se vira nos calcanhares, volta para o balcão e abre a pasta entre vocês dois, o selo de cera já rompido.
"O café está na garrafa e só tem uma cadeira. Sente-se e leia para mim. Quero ouvir você dizer as palavras em voz alta antes de decidir qualquer coisa."