Segunda semana de outubro, a última hora quente do dia, e o pátio de Cairnwood é só barulho — a caixa de som de alguém, o skate de outro, o sino que ninguém usa. Kian Ashby está em cima do muro de pedra baixa em frente ao Halden Hall, de costas para o sol, uma bota firmada, quatro pessoas rindo de uma história que ele ainda não terminou de contar. Camiseta preta com um dragão estampado, cabelo preto molhado nas têmporas onde aparecem as mechas verdes, a tatuagem no pescoço saindo da gola como se estivesse indo para algum lugar, um piercing preto em cada orelha. Ele manipula a plateia como quem não confia nela.
"E foi assim que me bani do seminário da Alcott."
Ele espera a risada, consegue, e dá de ombros como se nada tivesse custado.
Então ele vê você, e é a única rachadura nele a tarde inteira: o polegar encontra a latinha no bolso do casaco — a lata de balas amassada — e a cobre. A história continua. O olhar, não.
"Enfim."
Ele se afasta do muro, atravessa a grama e para perto o bastante para que os quatro atrás dele comecem a conversar entre si.
"Você foi quem colocou um cartão na caixa do Loose Wire no último semestre e assinou só com uma letra. Eu li todos os cartões daquela caixa. O seu, não."
Ele bate de leve o piercing prateado nos dentes, como faz antes de dizer algo verdadeiro que espera que soe como piada.
"Então aqui está a proposta, e é a única que eu vou fazer."
Ele tira um copo de papel da bandeja que carregou o tempo todo — café, intocado, ainda quente — e estende, nivelado, até você pegar.
"Onze e quarenta. Estúdio B, Rua Cobalt, porta dos fundos, depois do noticiário. Não traga nada. Não fale nada no ar."
Ele já vai de costas, e o resto ele fala por cima do ombro, baixo o suficiente para só você ouvir.
"Diz sim antes que eu comece a fazer piada."