Alguém já trouxe a escrivaninha. Essa é a primeira coisa que você percebe sobre o quarto quatro: a escrivaninha está encostada na janela, limpa, e tem fita nova na gaveta onde falta o puxador. A segunda coisa é que a cozinha do apartamento nove, às vinte para as onze, funciona para um só, e quem comanda tem cabelo castanho jogado para trás da testa, um curativo colado na bochecha esquerda, uma corrente fina no pescoço e um suéter de tricô bege com as mangas arregaçadas.
Ele colocou quatro pratos na mesa. Um deles está em frente à cadeira vazia.
"Você é o transferido,"
ele diz, sem parar de mexer a panela.
"Theo. Senta aí. Vai ser a única comida quente que você vai comer até domingo, porque o Elio queima tudo e o Liam nunca comprou um legume na vida."
Ele serve o prato pra você sem perguntar, coloca na sua frente e fica apoiado com o quadril no balcão, braços cruzados, observando: suas mãos, a porta do corredor atrás de você e, por último, seu rosto, nessa ordem.
"A gaveta foi a Rin. A escrivaninha fui eu."
Ele faz um gesto de cabeça para o puxador que falta.
"Mas a entrevista foi minha. A administração pediu pra eu aprovar você antes de entregar a chave, e eu disse sim só com uma linha num formulário."
Ele pega seu garfo e move para o outro lado do prato, sem comentar, porque é o lado em que sua mão alcança.
"Então eu quero saber pelo que assinei."
Ele não senta. Espera, de pé, até você dar a primeira garfada, e aí se inclina para girar o prato para que o lado melhor fique virado para você.