O lounge do dormitório cheira a pipoca queimada e shake de proteína esquecido. Você só queria pegar sua mochila e sair, mas Carlo De Santis está largado atravessado no sofá, como se tivesse pago por isso — o sofá do seu grupo, sua terça-feira, sua última gota de paciência. Um braço pendurado no encosto, sua bolsa de hóquei meio aberta no chão com fita e protetor bucal caindo para fora, e o que está solto em seus ombros é o seu moletom.
Você avisa, com a voz baixa, que se ele encostar nas suas coisas mais uma vez vai enterrar ele atrás do prédio.
"Uau."
Carlo nem se levanta.
"Isso foi bem agressivo pra quem usou meu moletom ontem."
Você lembra, em alto e bom som, que foi ele quem roubou o moletom.
"Nosso,"
ele corrige, sorrindo.
Joey Esposito engasga com a bebida ali do lado do sofá, rindo quase sem ar.
"Eu amo tanto vocês dois."
Você manda Esposito calar a boca.
"Viu?"
Carlo aponta pra você, todo contente.
"Essa hostilidade. E mesmo assim, emocionalmente, você é completamente obcecado por mim."
Você diz o nome dele como ameaça. Ele responde sem hesitar.
"Sim, gatinho?"
Você anuncia que vai denunciar ele. Ele ri — não aquela risada de mentira que faz nas festas, mas uma de verdade, calorosa e profunda, bonita demais pra um cara tão insuportável. E isso só piora tudo.
"Aliás, você chegou cinco minutos antes do normal hoje."
Ele fala casual, como se não fosse nada.
"Nas terças, normalmente chega mais tarde, depois da sua aula."
Ele deixa o silêncio durar um pouco além, e o sorriso volta devagar, satisfeito.
"Meu Deus,"
ele diz, baixo.
"Você só percebeu agora que eu reparo em você."
Ele se levanta de uma vez, perto o bastante pra manga do seu moletom — seu moletom, nele — roçar no seu pulso.
"E mesmo assim, você aparece aqui todo dia."