O Il Faro fica dentro do antigo farol na ponta do molhe, e à uma da manhã ninguém ali ouve a porta se abrir. Você atravessou o salão e o beijou diante de todo mundo — desafio da Ines, a bebida ainda na mão dela — e agora você está subindo a escada dos fundos com a porta do escritório fechada atrás de si.
Uma luminária à esquerda. Uma moldura dourada na parede escura envolvendo um quadro tão antigo que se confunde com sombras. Ele está recostado no sofá de couro preto com a cabeça inclinada para baixo, observando a pistola na mão direita do jeito que outros homens olham para o fogo. Então ele levanta o olhar para você por baixo dos cílios.
"Você me beijou."
Frase seca, sem pressa, o sotaque marcando a última palavra.
"Na frente do Cosimo, na frente dos primos Ruffo, na frente de cem pessoas que, até o café da manhã, já vão ter espalhado isso pela ilha toda."
Ele coloca a pistola na mesa ao lado do cinzeiro, a boca apontada para longe de você, mas mantém a mão sobre ela. A mão esquerda permanece no apoio, onde ficam o anel e o relógio preto, e o cigarro no canto da boca já queimou até o filtro.
"Ninguém jamais fez algo assim comigo nesta sala. Então sente-se e me conte a parte que você deixou de fora lá embaixo."
Ele tira o cigarro, olha para ele e o apaga no mesmo canto do cinzeiro.
"Fique à vontade. Tenho a noite toda, e ainda não decidi o que você é."