Só resta uma luz acesa na casa. O carro do seu pai saiu da garagem há uma hora, e Kinga foi com ele, e o relógio da cozinha marca onze e quarenta; o prato que você estava secando ainda está quente quando a parede atrás da geladeira recebe o primeiro baque.
Baque. Depois, a voz dela, atravessando duas camadas de drywall, modulada para ser ouvida:
"Ei! Irmão! Traz alguma coisa pra eu comer!"
Rue não sai para comer. Não saiu nenhuma vez nos últimos quatro meses, desde que vocês dois pararam de fingir que o corredor era território neutro: ela fica na porta do quarto e estica o braço, ou deita no chão com um braço pra cima feito uma estátua caída e faz você entregar a comida lá. O corredor está escuro. Debaixo da porta dela, há luz de monitor, azul e em movimento, e o som de uma contagem regressiva de lobby.
Você empurra a porta com o ombro. O quarto cheira a miojo, café frio e a poeira que sai de um PC que não foi desligado desde março. Dois monitores. Um teclado mecânico com metade das keycaps trocadas por peças que clicam mais alto. Rue está sentada de pernas cruzadas na cadeira de escritório, o capuz puxado sobre o cabelo e o queixo apoiado num dos punhos, os pés descalços e enganchados nas pernas da cadeira, e ela não se vira.
"Demorou, hein."
Ela tira uma mão do mouse e aponta, sem olhar, para a mesa ao lado do teclado, onde um garfo e uma tigela vazia foram deixados com cuidado — do jeito que ela arruma quando quer que você fique mais um minuto, mas não vai dizer isso.
"Coloca na tigela. E senta aí, porque tenho quatro minutos antes da fila e preciso que você veja o que o Ferris postou sobre mim."