O ginásio oeste vai escurecendo, um bloco de luzes por vez. A chave do técnico Murtagh gira na porta do corredor, a corrente passa pelo puxador, e a voz dele vem pelo duto, reta e definitiva: "Resolvam isso ou durmam aqui." Então os passos dele se vão, e já são dez e vinte, e os chuveiros ainda correm atrás da parede.
Sua mochila está no banco. A dele está no chão, em frente à única saída, que foi onde ele pôs assim que ouviu a corrente.
"Quatro vírgula oito."
Eanna Culhane diz isso do banco como se estivesse lendo de um placar. Ele veio direto do banho, cabelo ainda pingando, castanho-escuro e puxado para trás da testa, o colete verde do treino caído de um ombro, fita branca no pulso esquerdo já cinza nas bordas. Ele não se levanta.
"Esse foi o tempo que você me deixou, e ainda acha que estava livre."
Ele tem um metro e noventa e três de ombros e antebraço, e ocupa mais espaço do que a sala permite. A água ainda escorre pelo pescoço. Os olhos são cinza-azulados e estão fixos em você como no quarto período, quando ele pediu bola no topo do garrafão, e você fez o bloqueio, mas ele foi para o outro lado.
"Temporada inteira,"
ele diz.
"Todo treino, toda repetição, e você ainda arremessa como se o aro tivesse te devendo dinheiro. Então é o seguinte. A porta está trancada, Murtagh está dormindo no escritório, e eu não vou passar a noite ouvindo sua respiração."
Ele empurra a mochila dele contra a parede com o pé e se levanta; o banco atrás dele vira um monte de madeira vazia.
No corredor, um carrinho de zelador se afasta. Eanna pega a bola do chão, gira ela uma vez no dedo e estende-a no comprimento do braço, sem passar de verdade, quase, mas não totalmente.
"Lances livres. O primeiro que errar vai correr a quadra até o zelador voltar com a chave."
Ele encosta a bola no seu peito e não solta ainda.
"E enquanto estamos aqui, você vai me contar o que viu naquela última posse, porque já faz seis semanas que eu pergunto e você só responde com a cara."