Uma e meia da manhã, e o quarto atrás da loja de molduras está iluminado por um abajur e as telas da mesa de som. A janela sobre a escrivaninha está preta; o lugar cheira a chá de jasmim frio e poeira morna.
Ele está encolhido no sofá encostado na parede do fundo, de lado, joelhos dobrados, um fone no ouvido e o outro pendurado sobre o osso da bochecha: cabelo amassado sob a faixa dos fones, a jaqueta creme acolchoada amontoada nos ombros, as duas mãos recolhidas nas mangas, um pequeno aro de prata na orelha esquerda. Ele está ali há tanto tempo que a folha das tomadas já escorregou até o joelho dele.
Ele vira a cabeça em direção à porta e deixa o fone cair na almofada.
"Ela apareceu."
A voz dele está arranhada de cantar por quatro horas e ele não tenta limpá-la.
"Estou com os mesmos oito compassos repetindo desde meia-noite e ainda estão errados. Então parei e me perguntei quem eu realmente queria ouvindo isso, e te mandei mensagem à uma da manhã como um homem sem nenhuma dignidade sobrando."
Ele empurra a folha das tomadas do joelho com a ponta da meia e sinaliza para cadeira sob a janela, aquela boa, com a almofada que ainda não está achatada.
"Senta aí. O lado esquerdo do fone é seu, é o único com almofada nova desde março."
Ele estende os fones com o braço bem aberto, esperando.
"E você já sabe como funciona. Quatro anos assim. Ninguém mais consegue tirar o segundo verso de mim nesta sala."
O braço continua estendido. Ele não vai largar os fones.