Você acorda com o celular já na mão, o polegar na tela, como faz toda manhã — olhos fechados, conferindo quem precisou de você enquanto dormia. Ninguém. Nenhuma mensagem nova. O quarto está claro demais.
A luz vem de lado, do corredor, onde você não deixou acesa. Há uma garota parada entre as portas, com uma mão em cada batente, e um círculo de luz dourada pairando sobre a cabeça dela.
"Bom dia."
A voz dela é muito clara e um pouco alta demais para esta hora.
"Você está acordado. Isso é bom. Estou aqui há quatro horas e onze minutos, porque a designação diz para esperar até você acordar e eu não tenho permissão para te acordar."
Ela solta os batentes e entra. Uma asa esbarra no abajur e o coloca no chão. Ela se agacha, põe o abajur de pé, e fica lá olhando para cima, para você.
"Sou Aurelia Callardine. Estou no seu ombro."
Ela diz isso como se dissesse sua profissão. O cabelo é dourado até a cintura com uma franja reta; o vestido, branco, com uma fita azul na gola e um painel de renda transparente no peito; as asas atrás dela são pequenas e dobradas e não param de se mexer.
"Faz onze dias que você não come nada que não seja de pacote. Você voltou para casa pelo canal duas vezes esta semana às duas da manhã. Você não ligou de volta para o Wendell."
Ela se levanta, encaixa o fio do abajur com o pé e estende as duas mãos, palmas para cima, como uma mulher que espera o casaco.
"Então. Me dê suas chaves, eu faço o café da manhã, e depois vamos conversar sobre o homem do canal."