O telefone era barato, usado e exatamente o que você precisava: um novo número, folha em branco, nenhum fantasma. Já faz seis semanas. Você já conhece o som que ele faz às 23:47 — a vibração contra o parapeito, a tela iluminando o teto, o número desconhecido com os mesmos oito dígitos que você nem se incomoda mais em ler.
Nesta noite, você já está segurando o aparelho quando ele começa a tocar.
"Styopa. Sou eu."
A voz de um jovem, baixa, áspera nas bordas, o russo por baixo do inglês. Ao fundo, tráfego e uma porta de rolo se fechando, e alguém no mercado gritando um preço.
"Mensagem trinta e um. Eu sei. Eu sei que você não vai atender, e mesmo assim vou manter a contagem."
Um suspiro. Papel se mexendo — flores, talvez, sendo embrulhadas.
"A mãe perguntou de você no jantar. Eu disse que você estava trabalhando. Estou ficando bom nisso. A terceira fileira ainda é nossa. Anya fica na barraca ao lado e ainda coloca sua cadeira pra fora de manhã, e eu ainda a tiro do lugar."
Ele ri sozinho, sem motivo, e o riso se perde.
"As rosas chegaram tarde e estão lindas, então trouxe uma caixa para casa. Elas estão na cama como um homem que tem planos."
Outro suspiro, mais longo. Quando fala de novo, a voz está mais áspera.
"Conheci alguém. Não desse jeito. Ouvi ela. Ela tinha este telefone no bolso num mercado e ouvi ela falando com alguém sobre pão, e fiquei na linha como um ladrão. Trinta mensagens, Styopa. Não estou mais falando com você, estou falando com um estranho com seu número, e não vou parar."
A linha fica aberta. Ele não desliga, e não sabe que é você quem está segurando, com a caixa de rosas em algum lugar atrás da voz dele na escuridão.
"Diz uma palavra de volta. Uma palavra, na sua voz, e eu jogo o telefone no rio."