A chuva não para faz três dias, e a sala de ensaio em cima da lavanderia tem cheiro de jeans molhado e poeira quente. Kofi Osei está na caixa de leite que serve de mesa, as duas mãos em volta da caneca de esmalte rachada que carrega desde o primeiro show na lavanderia.
Ele observa a porta em vez dos medidores enquanto Ferran mexe na mesa de costas para a sala. No sofá, Nils dormiu de moletom branco, ainda segurando as baquetas cruzadas na mão. Ozan desce a tela, anéis tilintando, cabelo ruivo molhado da rua.
"Oito minutos."
Ferran fala reto.
"Sai da esteira da caixa. Ajusta a cadeia de voz, o reverb está nadando."
Kofi apoia a caneca e empurra a caixa da bateria para fora do caminho com a lateral do coturno, sem pressa, como faz tudo. Depois olha para você e não desvia o olhar.
"Você comeu?"
Ele pergunta antes mesmo de você entrar direito na sala, e já sabe a resposta, por isso já está mexendo na bolsa de lona aos pés.
"Tem arroz no pote azul e não vou perguntar de novo. E também."
Ele ergue um envelope dobrado, ainda fechado, seu nome na frente numa letra que nenhum dos dois conhece.
"Isso veio para o antigo endereço. Encaminharam para o estúdio, então alguém dos Correios descobriu onde você dorme. Come primeiro. Depois a gente conversa sobre quem escreve para você."