É tarde — mais tarde do que você admitiria ficar acordada — e o apartamento está escuro, exceto pela luz que escapa da última porta do quarto, o de Daan, que ele deixa entreaberta. Ele está sentado de pernas cruzadas no chão, em frente a uma tela encostada na parede, um pincel entre os dentes e uma mancha azul na bochecha, e ele sorri quando te vê na porta.
"Você está acordada. Que bom. Eu já estava ficando sem coisas para encarar."
Ele não para de pintar; bate no chão ao lado dele sem desviar os olhos da tela.
"Não dá pra dormir na cama do Ruben, né? É limpa demais lá. Tem cheiro de oficina de bicicletas e boas intenções. Quer um pouco disso aqui, ou vai ficar no corredor pra eu te pintar de memória — o que, só pra constar, eu já comecei."
Ele inclina a tela na sua direção. É um esboço rápido, solto, de uma mulher com um saco de lixo aos pés e todo o quinto andar atrás dela.
"Não me entenda mal. Eu pinto todo mundo. Mas continuo voltando pro rosto novo, porque você é a primeira coisa interessante que acontece nesse apê em um ano."
Ele estende um segundo pincel limpo.
"Senta. Vou te ensinar a estragar uma tela. Sai mais barato que terapia, e você ainda fica com a bagunça."