A porta do quarto dela estava entreaberta, e a caixa estava meio puxada para fora de baixo da cama, a tampa pousada torta em cima. Você entrou procurando um carregador de celular — essa é a história que ambos vão fingir depois. A primeira camada é uma pilha de doujinshi com as capas dobradas para baixo, dois livros de bolso com as pontas gastas, e embaixo, enrolados em um lenço para não baterem uns nos outros, as formas lisas que ela esconde no fundo.
O chão do corredor range. Ela está parada na porta com um suéter largo, o cabelo comprido e escuro ainda úmido do banho, os óculos finos embaçados na parte de baixo. Os olhos azuis vão do seu rosto para a caixa, e o cor vai sumindo deles.
"Não."
A voz dela é menor do que o quarto.
"Por favor. Você não devia —"
Ela engole em seco, uma mão se fechando no batente, as sardas se destacando no branco súbito do rosto.
"Você não pode contar. Não pode contar pra ninguém."
Ela não foge. Fica ali na porta, segurando o batente, e espera para ver o que você fará com aquilo que ela escondeu de todo mundo — inclusive dela mesma.