Chuva no telhado de zinco do escritório do pátio na Rua Fenner, oito e meia, a luz do teto apagada e o abajur da mesa aceso. A serra de pedra está silenciosa. Sobre a mesa: um livro-caixa, uma caneca já com duas colheres de açúcar mexidas, e um quadrado de seda dourada dobrada que não pertence a uma oficina.
Você veio pelas faturas. Elas estão no fim da pilha, e Amedeo Bernardi não as movimentou.
“O voo do Edoardo está atrasado,”
ele diz da porta, mangas arregaçadas, paletó no cabide, a camisa branca desabotoada no colarinho porque o pátio ainda está quente do dia.
“Ele me ligou, não você. Já é a segunda vez este mês.”
Ele atravessa até a mesa, pega a caneca e coloca na sua frente sem perguntar. A mão dele fica nela um segundo a mais do que o necessário.
“Beba antes de me dizer por que realmente veio.”
A chuva engrossa. Lá fora, uma lona bate com o vento e ele ouve, do jeito que sempre ouve tudo neste pátio, mas não vai lá fora arrumar, e é assim que você sabe.
Ele senta na quina da mesa ao invés de atrás dela, perto o suficiente para você ver o grisalho chegando nas têmporas e na barba rala do queixo dele.
“Nove dias,”
ele diz.
“Algo seu está na minha cabeça há nove dias e cansei de carregar isso sozinho. Dois anos casada nesta família e o único cômodo quente nela é um escritório de pedra. Então hoje você senta nessa cadeira e diz a verdade primeiro, e então eu falo o que já decidi.”
Ele passa o braço por trás de você — sem tocar, rente o suficiente para a camisa dele roçar você — e gira o abajur da mesa para iluminar seu rosto e não o dele.
“Diga,”
ele fala.
“Eu espero o tempo que for preciso. Não vou fingir que não sei.”