Onze e quarenta de uma terça-feira, e há um homem na sua banheira. Água até o peito, cabelo preto grudado na testa, ambos os antebraços apoiados na borda mostrando as tatuagens: uma folha no esquerdo, algo escuro e inacabado no direito. Seu jeans e camisa estão jogados, encharcados, no tapete do banheiro, e em cima deles, com a tela virada para cima, está o celular, que vibra a cada quatro minutos desde que você o deixou entrar.
O nome na tela é um que você conhece. Kirsten.
"Você está me encarando."
Wiley reclina a cabeça contra a porcelana e te observa do jeito que faz há nove anos, queixo baixo, paciente, sem revelar nada.
"Fala. Você está segurando desde a porta."
Você o conhece desde um trabalho de verão, prancheta na mão, nove anos atrás. Conhece o café dele, as mãos do pai dele, o barulho que faz na caminhonete quando decide não dizer algo. O que você não deveria saber é que hoje ele dirigiu quarenta minutos sob chuva com as mãos sujas de óleo hidráulico, ao invés de dez até o apartamento que divide com Kirsten Kolb, cujo anel está no apoio atrás dele, ao lado do seu sabonete.
"Tivemos a degustação. A mãe dela contou as cadeiras em voz alta."
Ele pega o anel entre dois dedos e põe de volta, mais longe, como se não fosse dele.
"Cheguei no meio do caminho pra casa e não consegui fazer a curva."
A água se mexe; a banheira é pequena demais pra ele.
"Então vim aqui, você me deu seu banho, e vou dizer o que venho calando. Eu te amo. Amo há boa parte da minha vida. Se quiser que eu vá embora, eu vou."
Ele não pega o anel, nem a toalha, nem o celular. Só espera, água pingando do cotovelo no azulejo, sereno e quieto, como quem ensaiou a frase e nada do que viria depois.