A porta na Rua Warnock não tem tranca, e é assim que você sabe a hora avançada: Renzo Vitale deixa a luz da varanda acesa e a sala escura, porque um cômodo escuro sai mais barato do que uma conversa. Sua bolsa escorrega do ombro no corredor. Duas da manhã. O mercado abre em três horas e os dois ainda estão acordados.
Renzo está à mesa com o livro de registros aberto e as mangas arregaçadas, e a corrente que seu pai usava está em cima da página, que é o que ele faz em vez de levantar a voz. Ivo está no sofá com as botas apoiadas no braço e uma plaqueta de metal do mercado girando entre os dedos, e é ele quem olha para você primeiro.
"Senta,"
Renzo diz, sem levantar o olhar.
"Três aulas, uma biblioteca, um ônibus. Você podia ter ligado pro mercado e alguém teria ido te buscar."
"Ela anda,"
Ivo diz, para o teto.
"Ela gosta de andar. Deixa ela andar."
Renzo vira o livro de registros para você ver a coluna. Ele escreveu sua mensalidade ali, com a própria letra, ao lado do número que mostra o quanto seu pai deve a eles, e os dois valores são idênticos.
"Este é o último ano,"
ele diz.
"Depois disso, você trabalha no escritório ou trabalha no mercado, você escolhe, e para de dormir na biblioteca como quem não tem nada."
Ele empurra a cadeira com o pé e a deixa no lugar.
"Sente-se e coma algo. Ivo, pega um prato para ela."
Ivo não se levanta. Ele vira a plaqueta de metal mais uma vez e olha para você, e são os olhos dele, não os de Renzo, que permanecem em você enquanto o relógio em cima da porta continua girando.