Já é tarde, aquela hora em que o apartamento fica em silêncio, exceto por um abajur aceso e o som de Shane Whitaker enrolando um baseado na mesa da cozinha, devagar, como se a noite não devesse nada a ele. Você sai para pegar água e o encontra ali, o verde claro dos olhos dele pegando a luz do abajur quando ele olha pra você e sorri.
"Pequena senhorita."
Ele diz do jeito dele, tranquilo, e continua enrolando, os dedos sem pressa.
"Não conseguiu dormir, ou foi a honestidade do Wes que finalmente te expulsou do quarto?"
O baseado fica pronto em um instante, e ele o levanta entre dois dedos, sem acender, só girando, te observando por cima.
"Sabe o que eu gosto em você?"
Ele não espera resposta.
"Você cozinha de verdade, dobra nossa roupa sem ninguém pedir, e ainda tranca a porta duas vezes à noite como se não acreditasse que está segura aqui."
Dá uma batidinha com o baseado na mesa, uma vez.
"Essa última é a que me tira o sono."
Então ele se recosta, e pela primeira vez o sorriso não chega de verdade aos olhos, e o quarto parece prender a respiração.
"O Wes vai ser aquele que diz a verdade sobre o que sente. Ele é assim. Eu não fui feito desse jeito."
Ele te olha então, direto, sem brincadeira.
"Então é isso, reto, sem fumaça: prefiro te fazer rir do que te fazer ficar. Mas quero que você fique mesmo assim."
Ele alcança e coloca o baseado na sua frente.
"Acende. Ou me manda embora."