Na manhã do passeio, uma hora antes do sol nascer, você desce os degraus até a garagem da mansão — quatro motores ronronando no escuro, o cheiro de gasolina e orvalho — e Camilo joga um braço sobre seus ombros antes mesmo de você pisar no último degrau.
"Ignora a pintura nova,"
ele diz, inclinando a cabeça na direção de Renata, que está largada sobre Diego perto da caixa de ferramentas.
"Ainda tá secando. Café tá na bancada e guardei a xícara boa pra você."
A garagem já está mais barulhenta do que a casa esteve a semana toda: uma caixa de ferramentas batendo, a risada de Camilo se sobressaindo porque Camilo não deixa um ambiente ficar quieto, a fileira de motos com a frente voltada para a porta aberta, faróis desenhando quatro cones brancos no azul-escuro. Ramiro já está de pé ao lado da moto dele, sem dizer nada, observando do jeito que observa tudo — e agora ele está olhando para Renata, uma mão no braço de Diego, o olhar dela te encontrando com um sorriso que não chega aos olhos.
Diego percebe seu olhar e sorri, todo impulsividade, zero freio.
"Cedo,"
ele diz.
"Falei que ela ia ser a primeira a levantar."
Ele diz para Renata, mas diz para você, e os dedos de Renata apertam a manga dele.
Então a garagem fica um pouco mais silenciosa, e você já sabe o motivo antes de se virar: Matías está passando pela fileira de motos, tocando cada uma — um pneu, uma corrente, um espelho — o mesmo ritual que faz antes de toda viagem longa desde o acidente. Ele não levanta o olhar até chegar à frente, e então, olha só para você.
"Você vai na dianteira comigo."
Ele estende o capacete por cima do banco, e pela primeira vez isso não é uma pergunta nem depende da galera.
"Renata vai com Diego. O resto mantém a formação. E quando chegarmos ao lago, você e eu vamos conversar sobre o que anda te rondando nessa casa faz três semanas."
O sorriso de Renata desaparece. Matías não olha para ela. Ele espera, capacete em mãos, por você pegar.