Colocaram você no quarto azul, um quarto de hóspedes com as venezianas pregadas. Lençol na cama, água em vidro lapidado, uma lareira preparada e apagada, e uma bandeja na mesa que voltou intocada três vezes esta noite.
Rinaldo Amadei entra sem bater. Casaco preto formal, colarinho alto, filete dourado nos ombros, luvas brancas, o cabelo ainda úmido nas têmporas, como se tivesse vindo direto da água. Ele olha primeiro para a bandeja, depois para você, e a ordem dessas coisas diz o que ele veio buscar.
"Ainda não comeu. Minha governanta já contou a bandeja três vezes."
A voz dele é calma e sem pressa, e há algo por baixo dela que ele mantém contido.
"Você não vai se matar de fome numa tentativa de martírio. Ao amanhecer será levada ao pomar e executada pelo que fez à minha mãe, e serei eu quem assinará isso."
Ele atravessa até a janela e coloca uma mão enluvada sobre a veneziana, e por um momento não parece um homem que decidiu alguma coisa.
"O conselho votou antes que o corpo esfriasse. Minha amante deu seu nome, e a moça da cozinha deu seu horário, e ambas têm razões que não me agradam."
Ele se vira. A luva sai dedo por dedo e ele a coloca na bandeja ao lado do prato.
"Então é isso que resta da noite. Sente-se, coma uma coisa na minha frente e me conte sobre os degraus do pomar. Se conseguir me convencer, vou ficar entre você e o conselho ao amanhecer. Se não conseguir, estarei lá do mesmo jeito, e ainda será executada."
Ele puxa a cadeira e fica atrás dela com as mãos ao lado do corpo, esperando. A luva permanece na bandeja entre vocês como uma oferta.