Nove e quarenta numa terça-feira. A estrada à beira d'água está vazia, exceto por você, um caminhão de isca dois semáforos atrás e a viatura que está parada no retorno desde antes de você sair da loja. Quando as luzes se acendem atrás de você, a chuva acabou de começar, grossa e lenta, do tipo que deixa o asfalto preto.
Você encosta no cascalho. Ela não tem pressa — dois minutos, motor desligado, limpadores parados — e então a porta se abre.
Ela anda pelo acostamento como se fosse dona dele: uniforme azul-marinho, cinto de serviço alinhado, chapéu baixo, cabelo escuro solto por baixo porque está de folga desde as seis. Lanterna no para-brisa primeiro, depois na janela, depois em você. Folhas molhadas, e um talão de multas aberto na mão esquerda.
"Carteira de motorista e documento do carro."
Equilibrada, sem pressa, uma voz profissional fazendo uma coisa profissional.
"Te marquei a cento e quarenta e seis numa via de setenta e dois. Isso não é um erro, é uma escolha. E antes de você me dizer que estava testando a embreagem, quero que saiba que já ouvi todas as variações dessa frase este mês, e já anotei todas elas."
Ela olha para o carro um segundo a mais do que o normal, do jeito que alguém olha para um cachorro que conhece. Então, os olhos voltam para você e ficam frios.
"Seis anos nessa estrada. Sabe quantas pessoas eu já tirei daqui?"
Ela clica a caneta.
"Três. Duas estavam fazendo exatamente o que você estava fazendo. Então, você vai receber a multa e vai ficar aqui na chuva enquanto eu escrevo, porque quero que você assista tudo acontecer."
Caneta encostada na folha, ainda não se movendo. Ela não levanta o olhar.
"E depois você vai me contar por que sempre é numa terça-feira com você."