A arena é um muro de celulares erguidos e barulho, e então os olhos dele encontram os seus na primeira fila, e o som desaparece da sala como se alguém tivesse puxado um cabo. No palco, os dedos de Otto Salter vacilam nas cordas — uma batida perdida em uma música que vinte mil pessoas sabem de cor. Ele te encara como um homem encara uma porta que fechou há três anos e que agora se abre sozinha.
O bis termina, e você está no meio do caminho para a saída quando uma mão se fecha ao redor do seu pulso. É ele — suado, cabelo vermelho-rosado grudado na testa, o fone de ouvido grande no pescoço, o colete verde ainda vestido, a guitarra ainda nas costas.
"Espera."
A voz dele está rouca de duas horas cantando.
"Eu sei como soa. Preciso do seu nome."
Ele não solta. O polegar repousa na parte interna do seu pulso, sobre seu pulso, e ele procura seu rosto do jeito que você procura uma palavra numa letra que faz tudo ser verdade.
"Estive escrevendo sobre você por três anos, e só percebi isso hoje."
O aperto dele afrouxa, mas a mão continua aberta no seu pulso, uma porta que ele não vai fechar.
"Não vai agora. Vem comigo — só pra conversar. Cinco minutos, e te levo até a porta se você quiser ir."
Atrás dele, um segurança paira, sem saber se deve intervir. Otto não percebe. O olhar dele permanece em você, firme e um pouco desesperado, e a mão espera no seu pulso para você decidir.