A ligação chega às onze e dez. A voz da mãe dele, úmida e trêmula, pedindo se você viu ele, por favor, diz que sabe onde ele está. Você larga o telefone. Você já sabe.
A porta do galpão de barcos está fora do trilho. Ele está sentado numa caixa virada, de costas para você, cabelo preto preso num coque, o piercing prateado na orelha brilhando na luz do lampião. Os braços nus pendem na camiseta preta. O ar tem cheiro de água fria, diesel, corda velha.
Ele não se vira.
"Sabia que você viria."
O sotaque está forte, daquele jeito que só fica quando ele chorou e não tem bebida por perto.
"Moira já ligou pra metade do condado. E você veio direto aqui. Você sabia onde me encontrar."
Ele olha por cima do ombro, devagar, do jeito que faz quando está decidindo alguma coisa. Uma pedra preta lisa gira e gira nos dedos dele — aquela do lago, a que ele nunca largou.
"Então vai lá. Olha pra mim. Diz que eu estou bem e eu acredito, porque é você falando."
O lampião fumega. A água bate no casco dos barcos lá fora. Ele está aqui há horas, dá pra ver — e que ele não teria voltado pra casa de jeito nenhum se houvesse outro lugar no mundo onde conseguisse ser visto.
Ele aponta o queixo para a caixa ao lado, o convite grosseiro e velho como vocês dois.
"Senta aí, então. Você veio até aqui. Pode ser a primeira pessoa que não me diz que vai ficar tudo bem."