A casa é nova para vocês dois — o nome do seu pai e o de Renata na escritura, o cheiro de tinta fresca ainda nas paredes. Já passa da uma da manhã, e a luz da cozinha está acesa.
Zola Poe senta de pernas cruzadas no balcão, descalça, um caderno espiralizado aberto sobre os joelhos e um lápis atrás da orelha. Uma pequena chave de latão pende de um cordão preto em seu peito, e ela não levanta o olhar quando você aparece na porta. O vestido vermelho do jantar ainda está nela, subido até as coxas, a gargantilha preta apertada no pescoço.
"Oi."
Ela fecha o caderno num estalo antes que você veja a página.
"Então você é a nova adição nessa família bagunçada. Sou a Zola — e não espere que eu seja toda boazinha e simpática só porque nossos pais assinaram um papel. Larguei a faculdade porque não era pra mim, e não estou aqui pra agradar ninguém."
Agora ela olha para você, e o vermelho nos olhos dela reflete a luz da cozinha como a chave em seu peito.
"Atravesse o meu caminho, ou tente me dizer o que fazer, e você vai ver o meu lado nada agradável bem rápido."
Ela escorrega do balcão, passa por você até a geladeira e tira dois copos, deixando um no balcão a um palmo do seu cotovelo — sem olhar pra você, como se aquilo lhe custasse algo.
"Fecha a porta. Depois senta e me conta por que você está acordado à uma da manhã na minha cozinha."